Sexo: indescritível

Exatamente. O sexo é indescritível.

BBC Brasil |

Ou seja, não dá para se escrever sobre ele. Dá para se escrever sobre sexo no sentido de que, digamos assim, a moça era de meia altura, loura e curvilínea e o rapaz alto, moreno e de olhos claros. Daí os dois se dão 1) um beijinho e 2) as mãos, para 3) ir depois ao cinema. Ou para o quarto do hotel, se quisermos beirar a audácia. O resto são reticências, ponto, parágrafo, virar a página e partir para um bate-boca ou tiroteio. O equivalente a deixar nosso casalzinho bem a sós no escuro às voltas com... bem, às voltas com suas voltas
Isso, ao menos, em literatura. E segundo nosso bom e talentoso Martin Amis, escritor de meia-idade, meão, de lábios sobre o fino, cabelos macios e pele alva ansiosa por... Calma. Estou me deixando levar pelo assunto que ainda não cheguei a abordar nem de frente nem de costas para o arco adversário. Vamos tentar de novo abrindo outro parágrafo.

Em recente palestra para estudantes e admiradores, realizada no Centro de Estudos da Universidade de Manchester, dedicado à nova literatura, o festejado romancista e ensaísta Martin Amis começou sendo controvertido e citável, o que nunca deixa de ser louvável em qualquer escritor que se preze. Disse ele o seguinte diante da plateia que se reuniu para ouvi-lo numa das palestras com o tema "Literatura e sexo":
"O sexo é indescritível e, no entanto, ele povoa o mundo".

Algum dos presentes, se não disse, deve ao menos ter pensado, rimando, que "mesmo quando não povoa é uma boa". Enquanto outros divagavam pensando besteira ou se concentravam nos conceitos emitidos pelo renomado escritor, que, então, prosseguiu: "Eu mantive durante anos a fio uma discussão com meu pai (Martin é filho de Kingsley Amis, romancista dos bons) sobre sexo e literatura. Ele dizia que há certas áreas em que a literatura não deve se aventurar. Para ele, não dava para se descrever o sexo." Martin Amis cita então o pai por sua vez citando Henry James, outro que sabia das coisas e que, em determinada ocasião, escreveu que "narrar um sonho é perder um leitor".

Outro alguém, sempre na plateia, assim como quem não quer nada, pode, ou não, ter raciocinado intimamente que "sexo não tem nada a ver com sonho, bolas!" Mas deixemos para lá esse mau humorado indivíduo e voltemos às ponderações de Amis fils. Que, a seguir, com talento, ofereceu uma pequena história do sexo na literatura, de Geoffrey Chaucer a Lolita, de Vladimir Nabokov.

A seguir, fez para o auditório a pergunta: "Agora que temos a total liberdade de escrever sobre sexo, cumprimos bem ou mal o trabalho descritivo?"
Não se sabe, ou eu não sei, a reação dos presentes. Não sei se articularam ou não seus mais recônditos pensamentos a respeito do delicado assunto. Eram estudantes. Jovens, fica subentendido. Por jovens podemos dizer (eu, ao menos, posso e digo) que boa parte dos jovens não pensa em outra coisa. Se escrevem a respeito em seus blogs ou nos blogs dos outros, se twittam ou deixam de twittar, não sei e não tenho vontade nenhuma de saber. Sei que uma revista literária importante, The Literary Review, costuma nomear e premiar todos os anos aquilo que batizou de Bad Sex, no sentido de fracativas (ridículas ou destemperadas) tentativas de descrever essa mais antiga das diversões ou passatempos.

Will Self, outro escritor presente aos trabalhos, convidado especial de Amis, e que já esteve em festa literária no Brasil, como todo mundo, insistiu em dar seu depoimento. Self, ele próprio, já indicado três vezes para abiscoitar (arrã) o prêmio Bad Sex, perguntou retoricamente a si mesmo (Self, ele próprio, a si mesmo, pegaram?): "Será que eu escrevi mal sobre o sexo ou meramente escrevi sobre o mau sexo?" Acrescentando que "o erótico é metafórico". Prosseguindo para decretar que "a crise em nossa (lá dele) cultura é que nos permitem escrever sem metáforas".

Mais: "Dar nome às partes envolvidas no processo sexual é algo que corrompe muito... Eu acredito na manipulação dos desejos sexuais dos leitores, provocando-os metafórica e literalmente." Will Self finalizou sua intervenção confessando, ou, para não passar julgamento, simplesmente dizendo que, quando escrevia sobre a homossexualidade, "começava a ter sonhos eróticos homossexuais" e passava a "alimentar desejos por homens".

Ninguém na distinta plateia, evidentemente séria e pouco sexista, se importou ou comentou a respeito. No que Martin Amis aproveitou a lacuna para dizer que o processo de escrever, de uma forma geral, já é "horrendamente onanístico" e que "um romancista é alguém que se sente mais vivo quando sozinho".

Terminada a palestra, os participantes partiram para suas respectivas solidões e outro processos, talvez mais gostosos e menos controvertidos.

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