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Setor agrícola vive aventura devido à instabilidade, diz Roberto Rodrigues

O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues disse, em entrevista exclusiva à BBC Brasil, que os agricultores brasileiros estão vivendo uma aventura para plantar neste ano, devido à instabilidade no preço das commodities e na cotação do dólar. Segundo ele, a atual crise financeira global agravou a falta de crédito rural e há risco de faltar dinheiro para a próxima safra.

BBC Brasil |

A situação enfrentada pelos agricultores do país é, segundo ele, "grave".

Leia a seguir a entrevista de Rodrigues à BBC Brasil, em que ele fala do impacto que a crise financeira terá sobre o setor agrícola.

BBC Brasil - Na crise que se instalou, que problema é mais grave para o agronegócio? A falta de crédito ou a queda dos preços das commodities?
Roberto Rodrigues - É preciso ficar claro que o problema do crédito não tem nada a ver com a crise. Tem a ver com o fato de que os custos de produção subiram muito no Brasil, por causa do aumento do preço de fertilizantes, petróleo, aço etc. Ao mesmo tempo, houve uma redução na oferta de crédito por conta da redução dos depósitos à vista no Brasil, ocasionada pelo fim da CPMF. Os depósitos à vista são a grande fonte de financiamento do setor agrícola brasileiro, já que, por lei, os bancos são obrigados a usar 25% desse capital na forma de crédito ao agricultor.

Logo, nós já tínhamos um problema de crédito rural, independente da crise internacional. A crise veio apenas agravar esse quadro. Os R$ 5 bilhões que o governo colocou à disposição no mercado não está chegando às mãos do produtor, pois os bancos estão preferindo segurar esse dinheiro, em meio às incertezas.

BBC Brasil - Quais são as conseqüências disso?
Roberto Rodrigues - A situação é grave. Estamos plantando uma safra muito cara, com muito menos recursos. Além disso, em momentos como esse o agricultor acaba usando menos tecnologia, investindo menos, o que implica quase que fatalmente em redução de produtividade.

BBC Brasil - Haverá impacto nos preços?
Roberto Rodrigues - É impossível de prever. Este ano, plantar é uma aventura. Acho improvável que os preços caiam ainda mais, mas não é impossível. A valorização do dólar aparece como uma forma de mitigar esse problema, mas não temos como prever o futuro da moeda. O dólar está valorizado hoje, mas daqui a alguns meses, quando formos colher a safra, a cotação será outra.

Se os preços e o dólar caírem, aí sim será o pior dos mundos para a agricultura brasileira. Não temos cobertura de seguro rural, como têm os países ricos. Repito: esse cenário é pouco provável, mas não é impossível. Já vivi isso antes.

BBC Brasil - Qual a saída nesse momento?
Roberto Rodrigues - Para o agricultor, meu conselho é: enxuguem os custos, apertem os cintos e plantem somente o que for possível plantar com o crédito rural barato ou com recursos próprios, mas sempre com boa tecnologia. Não plantem o resto.

Já o governo deveria ressuscitar a política de preços mínimos, que é uma lei federal. Mais recursos para o Ministério da Agricultura também ajudaria a tirar o agricultor da aventura que se aproxima.

BBC Brasil - Os bancos são, historicamente, reticentes em ampliar o crédito agrícola. Por quê?
Roberto Rodrigues - Porque não funciona, até hoje no Brasil, o seguro rural. Trata-se de um mecanismo, adotado também nos países ricos, que garante a renda ao agricultor. A agricultura é uma atividade a céu aberto, sujeita a chuvas e trovoadas, literalmente. O seguro rural foi criado em 2003, mas sua implementação é um processo lento, que pode levar uns dez anos. Os bancos não têm nenhuma garantia de que vão receber os empréstimos que fazem ao agricultor, sobretudo em um momento de crise como esse. O que existe é uma preocupação da parte dos bancos, egoísta, e que faz parte da vida.

BBC Brasil - Antes de a crise estourar, falava-se que os preços altos ajudariam na liberalização de mercados. Agora que os preços estão recuando, o senhor acredita que possa haver um retrocesso nas negociações da Rodada Doha, por exemplo?
Roberto Rodrigues - Acredito, sim. Eu era um daqueles que defendia, arduamente, a tese de que, com os preços elevados como estavam, não fazia o menor sentido manter o protecionismo agrícola. Era uma coisa que os países ricos teriam de compreender e, de uma certa forma, abrir o comércio agrícola. Não era possível manter subsídios com os preços altos como estavam, e que deveriam permanecer assim, de acordo com as previsões de demanda crescente.

Agora o cenário mudou. Se os preços continuarem caindo como estão, muito dificilmente conseguiremos reverter a tendência protecionista dos países ricos. E aí Doha fica empacatada até o final do século.

Acho difícil, porém, que as commodities caiam a um preço tão baixo. Quando chegarmos a esse nível, o mundo já acabou. Não é provável, mas é preciso considerar a hipótese.

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