A concentração de terras aumentou e o setor agrícola demitiu mais de 700 mil pessoas nos últimos 30 anos, segundo um estudo do economista José Marangoni Camargo, da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo) de Marília.

    Segundo Marangoni, professor da Faculdade de Filosofia e Ciências, a orientação da produção para exportação e o aumento da demanda por etanol estimularam a concentração do setor em monoculturas, que estão nas mãos de poucos proprietários e que precisam de cada vez menos mão-de-obra.

    "Em 1971 havia 1,72 milhão de trabalhadores no setor. Em 2004, o número caiu para 1,05 milhão - uma redução de quase 40%", destaca o estudo, citando dados do Instituto de Economia Agrícola, ligado à Secretaria de Agricultura do Estado.

    A pesquisa cobre o período entre 1971 e 2004, mas a tendência verificada, de aumento da produtividade na base da mecanização, que dispensa grande contingente de mão-de-obra, se mantém e vem se acentuando nos últimos anos, segundo o economista.

    "O contingente é cada vez menor e a produção vem crescendo. O fenômeno mais evidente é uma hegemonia crescente da cana. Nos anos 90, a cana representava 29%, em 2006 representava 56% (das culturas mais plantadas, que por sua vez ocupam mais de 90% das terras)", disse Marangoni, em entrevista à BBC Brasil.

    Mecanização
    Para o pesquisador, as inovações tecnológicas e a concentração fundiária ocorridas nesse período diminuíram o número de empregados por hectare em 80,9% no caso do algodão e 67% nos campos de trigo, para citar apenas dois exemplos mencionados no estudo como reflexos desse processo.

    Se o número de trabalhadores diminuiu 61% entre 1971 e 2004, o de máquinas agrícolas triplicou entre 1970 e 2000, assim como a porcentagem de propriedades rurais que utilizam tratores, que passou de 14% para 42%, de acordo com o estudo de Camargo.

    "A maior eliminação de postos de trabalho ocorreu na década de 1990, quando o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) estimulou a compra de maquinário entre os produtores rurais", afirmou o economista.

    Uma colheitadeira de cana substitui o trabalho de 80 a 120 pessoas, de acordo com a pesquisa.

    Concentração
    Em relação à concentração fundiária, Marangoni aponta que nos últimos 30 anos o número de proprietários no Estado caiu pela metade, de 470 mil para 233 mil.

    Marangoni também observou mudanças no padrão de contratação, com maior demanda por qualificação técnica, vínculos empregatícios mais estáveis e diminuição dos trabalhadores temporários.

    Por outro lado, destaca o pesquisador da UNESP, a média dos salários continua baixo mesmo para os operadores de máquinas, que têm a melhor remuneração, e caiu drasticamente para os trabalhadores manuais.

    "Mesmo eles (os operadores) ganham no máximo dois salários mínimos", diz o pesquisador, destacando que muitos desses trabalhadores têm de arcar com o custo de vida na cidade, já que diminuiu também o número daqueles que vivem nas fazendas. "Os empresários reclamam de (falta de) de mão-de-obra qualificada, mas isso (a qualificação) não reverte em salários."

    Marangoni cita o estudo da agrônoma Ana Terra Reis, da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da UNESP, para sustentar que a remuneração dos trabalhadores manuais vem caindo. De acordo com Reis, da década de 1980 até 2004, o valor pago aos cortadores de cana por tonelada cortada caiu de R$ 9,00 para R$ 2,50.

    "É uma situação paradoxal, com trabalhadores qualificados com salários melhores coexistindo com trabalhadores que conseguem se manter no emprego com uma sobrecarga de trabalho enorme", diz o pesquisador.

    Segundo Marangoni, os trabalhadores dispensados têm sobrevivido de trabalhos temporários no campo e na cidade ou engrossam as fileiras de desempregados.

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