Sérvia prende criminoso de guerra Ratko Mladic

Ex-comandante militar sérvio é o mais proeminente acusado de crimes de guerra da Europa que ainda estava foragido

iG São Paulo |

O ex-comandante militar das forças servo-bósnias Ratko Mladic , de 69 anos, o mais procurado criminoso de guerra da Europa e o mais proeminente acusado de crimes de guerra e genocídio que ainda estava foragido nas guerras dos Bálcãs dos anos 1990, foi preso nesta quinta-feira na Sérvia. Sua prisão abre caminho para que o país busque a adesão na União Europeia .

Mladic estava foragido desde 1995, quando foi indiciado pelo Tribunal de Guerra da ONU em Haia, Holanda, por genocídio pelo massacre de até 8 mil muçulmunos bósnios na cidade de Srebrenica , em 1995, e pelo cerco brutal de 43 meses a Sarajevo durante a Guerra da Bósnia (1992-1995).

O presidente da Sérvia, Boris Tadic, confirmou a prisão de Mladic após a realização de testes de DNA. "Em nome da República da Sérvia, anunciamos que Ratko Mladic foi preso. O processo de extradição está em curso", disse em Belgrado, referindo-se à transferência do ex-comandante para Haia.

Horas após o anúncio, Mladic compareceu a uma sessão fechada em uma corte de Belgrado . Como é provável que ele entre com uma apelação contra a extradição para Haia, o processo pode demorar até sete dias.

Tadic afirmou que Mladic foi detido na Sérvia, país que durante muito tempo disse que não poderia encontrar um homem visto como herói por muitos sérvios. "Isso retira um fardo pesado da Sérvia e vira uma página de nossa desafortunada história", declarou o presidente.

Mladic foi preso no vilarejo de Lazarevo, perto da pequena cidade de Zrenjanin, no nordeste do país, a cerca de 100 quilômetros da capital Belgrado, informou um oficial de polícia. Ele foi preso ao amanhecer na casa de um parente depois de uma caçada de 16 anos. Ele tinha duas pistolas quando foi preso, mas não apresentou nenhuma resistência e parecia envelhecido e pálido, disseram autoridades e a mídia sérvias.

Sua detenção é "resultado de uma cooperação completa entre a Sérvia e o Tribunal de Haia. No dia de hoje, fechamos um capítulo da história de nossa região, que nos levará a uma reconciliação completa", disse o presidente sérvio.

Um amigo da família de Mladic disse à Reuters que ele foi levado ao quartel-general da agência de inteligência sérvia após uma autoridade do Ministério do Interior dizer que a polícia havia detido alguém que se acreditava ser ex-comandante e estava verificando sua identidade. Autoridades informaram que o homem foi detido com documentos no nome de Milorad Komadic e sua prisão aconteceu graças a uma denúncia anônima.

AP
Presidente da Sérvia, Boris Tadic, anuncia prisão de ex-comandante servo-bósnio Ratko Mladic durante coletiva em Belgrado
Repercussão

O procurador-geral do Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia (TPII), Serge Brammertz, reconheceu "o trabalho" das autoridades sérvias para deter Mladic. "Agradecemos (às autoridades sérvias) o cumprimento de suas obrigações para o tribunal e a justiça", indicou Brammertz em comunicado, no qual destaca os "esforços da comunidade internacional ao apoiar as medidas que asseguraram" a detenção de Mladic.

A União Europeia disse que a detenção de Mladic mostrará que a Sérvia, que sob o governo do falecido Slobodan Milosevic armou e financiou as forças servo-bósnias durante a guerra, deseja levar adiante sua adesão à União Europeia.

A chefe das Relações Exteriores da UE, Catherine Ashton, elogiou a prisão e disse que ele deveria ser enviado ao tribunal para crimes de guerra sem demora. "Esse é um passo importante para a Sérvia e para a Justiça internacional", disse em comunicado. "Esperamos que Ratko Mladic seja transferido para o TPII sem demora. A total cooperação com o TPII segue sendo essencial para o caminho da Sérvia rumo a seu ingresso na UE", afirmou.

Sobreviventes muçulmanos bósnios disseram que a notícia causa um sentimento misto. "Estou feliz por estar vivo para testemunhar sua prisão, e ao mesmo tempo lamento muito que outras vítimas de Srebrenica não viveram para testemunhar este momento," disse Munira Subasic, que perdeu o filho e o marido quando soldados servo-bósnios sob o comando de Mladic tomaram Srebrenica, designada na época como "área segura pela ONU".

Perfil

Depois de viver em liberdade em Belgrado por algum tempo, Mladic desapareceu quando o ex-presidente da Iugoslávia Slobodan Milosevic foi preso, em 2001. A especulação sobre uma prisão iminente de Mladic aumentou quando Karadzic foi capturado em Belgrado, em julho de 2008.

Mladic nasceu na Bósnia, no vilarejo de Kalinovik, em 1942. Ele cresceu na Iugoslávia sob o regime de Tito e se tornou um oficial do Exército do Povo Iugoslavo. Quando o país começou a se desintegrar em 1991, ele foi enviado para liderar a 9ª Corporação do Exército Iugoslavo contra as forças croatas, em Knin.

Mais tarde, assumiu o comando do Segundo Distrito Militar do Exército Iugoslavo, com base em Sarajevo. Em maio de 1992, a Assembleia Servo-Bósnia votou pela criação de um Exército servo-bósnio, nomeando Mladic como seu comandante.

Ele era considerado um dos principais artífices do cerco de 43 meses a Sarajevo, e, em 1995, liderou a matança promovida pelas forças sérvias em Srebrenica - a maior atrocidade cometida na Europa desde a Segunda Guerra.

*Com AP, AFP, BBC, EFE e Reuters

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