Sequestro vira negócio nas Filipinas

María Gómez Silva. Manila, 27 jun (EFE).- Ka Kuen Chua voltava para casa, nos arredores de Manila, quando seis homens armados o arrancaram de seu carro e o agrediram com fuzis até deixá-lo inconsciente.

EFE |

Chua foi mantido refém em um cativeiro, com uma corrente presa ao seu pescoço e faminto, durante 70 dias.

Pelo menos 49 pessoas, segundo organizações independentes, e 20, nos números oficiais, viveram este trauma neste ano nas Filipinas, em um mal que as autoridades consideram como endêmico e que aumentou junto com o desespero dos criminosos devido à dureza da situação econômica no país.

"Os sequestros se transformaram em uma indústria local, isto foi longe demais", admitiu em março o Conselheiro de Segurança Nacional filipino, Norberto González.

Embora não existam cálculos oficiais sobre a quantidade de dinheiro que esta atividade movimenta no arquipélago, alguns dados jogam luz sobre a magnitude do fenômeno.

A organização terrorista Abu Sayaf, por exemplo, arrecadou US$ 1,5 milhão em 2008, um número astronômico para o sul do país, onde mantém sua base de operações, em região na qual mais de 10% da população passa fome.

"A quantia do resgate depende do poder aquisitivo da vítima e da organização que sequestra. Habitualmente, os sindicatos do crime cobram em torno de um milhão de pesos filipinos (uns US$ 20 mil) e os grupos islamitas do sul costumam pedir mais. Se o refém é estrangeiro, a cifra se multiplica", conta à Agência Efe o subchefe da brigada antisequestros da Polícia filipina, Edgar Iglesia.

"Não se pode colocar no mesmo saco os guerrilheiros islamitas e o criminoso comum, mais própria da capital. Os primeiros chamam o pagamento de 'despesas de alojamento e manutenção' e não sequestram apenas por dinheiro, mas também para fazer visível sua causa política", acrescenta Iglesia, enquanto come com esforço uma refeição que consiste em um prato de arroz.

No entanto, também não se pode dissociar o componente econômico dos sequestros realizados pelos islamitas no sul do país, como prova a alta aceitação social de que gozam na área pelo giro de dinheiro que representam para a região.

Assim, mais de 20 pessoas foram detidas, entre elas policiais e políticos locais, acusadas de terem oferecido esconderijo e mantimentos aos sequestrados dos três voluntários da Cruz Vermelha capturados na ilha de Jolo, em 15 de janeiro.

Como ocorreu neste caso, as operações mais midiáticas são as que afetam estrangeiros; entretanto, o alvo mais frequente dos grupos criminosos costuma ser a endinheirada comunidade chinesa (popularmente conhecida como "chinoy").

Embora estes só representem 2% dos quase 90 milhões de habitantes das Filipinas, um terço dos sequestros ocorridos este ano foram cometidos contra pessoas de origem chinesa, como o arquiteto Ka Kuen Chua, segundo um estudo da organização Ação Cidadã contra o Crime.

Famoso por ter construído as casas de vários personagens da comunidade chinesa, Chua foi libertado em 23 de setembro em uma operação policial que terminou em tiroteio e com a morte de um dos sequestradores.

A Polícia filipina decidiu atuar três dias depois de a irmã de Chua ter depositado mais de um milhão de pesos no contêiner de lixo de uma lanchonete, sem conseguir sua libertação.

"Tive muito medo, mas, desde então, tenho muita fé na forças de segurança", assegura Chua, que não pode evitar se emocionar ao lembrar seu pesadelo, durante o qual emagreceu mais de seis quilos.

"Meus sequestradores não queriam falar comigo, mas eu pedia a eles para que levassem em conta a minha mãe, de 88 anos e doente", acrescenta Chua, cujo caso chegou à Polícia e à imprensa devido à denúncia de uma testemunha.

"Muita gente evita informar os policiais porque acredita que é mais seguro negociar diretamente com os criminosos", diz Chua, para explicar por que as estatísticas oficiais de sequestros diferem tanto diante das divulgadas pelas associações de cidadãos.

Neste sentido, o Governo filipino pediu em várias ocasiões que as forças de segurança sejam avisadas o mais rápido possível e que o pagamento de resgates seja evitado para frear a expansão do crime, embora haja o temor de os sequestradores sejam policiais.

No entanto, a Polícia não vê um final próximo para este problema, como nas palavras de Iglesia: "Essa gente não tem outro jeito de ganhar dinheiro. Nos últimos meses, neutralizamos três grupos; porém sabemos que, quando voltarem a ficar desesperados, se reorganizarão.

Nas Filipinas, o sequestro é uma doença crônica". EFE mgs/bba

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