Taxistas, vendedores ambulantes e lojistas voltaram na quinta-feira a percorrer as ruas da capital do Haiti, cobertas por destroços, depois de o presidente ter demandado o fim dos distúrbios provocados pelo aumento do preço dos alimentos.

O governo, no entanto, ouviu críticas da oposição, que o acusou de não adotar as medidas necessárias para enfrentar a crise.

Em uma carta assinada por 16 dos 27 senadores do país, a oposição exigiu a renúncia do primeiro-ministro Jacques Edouard Alexis. O documento surgiu depois de uma semana de violentos protestos contra o aumento do custo de vida, em meio aos quais foram mortas cinco pessoas.

Os distúrbios, que começaram no sul do país mais pobre da América Latina e chegaram a Porto Príncipe (capital) na segunda-feira, colocaram em choque as forças de paz da Organização das Nações Unidas (ONU), armadas com bombas de gás lacrimogêneo e armas de balas de borracha, e milhares de haitianos famintos e enfurecidos com a alta dos preços do arroz, do feijão e de outros produtos alimentícios.

As barricadas formadas com pneus em chamas e carcaças de carros que tinham paralisado a capital foram desmontadas, o número de saques diminuiu e os grupos reunidos ao redor do Palácio Nacional dispersaram-se depois de o presidente do país, René Préval, ter ordenado o fim dos protestos, na quarta-feira.

O dirigente prometeu aumentar a produção nacional de alimentos a fim de reduzir a dependência do país em relação às importações, mas muitos manifestantes disseram querer uma ação de efeito imediato e ficaram desapontados com o fato de o governo não ter cortado os impostos que incidem sobre os produtos alimentícios.

'As propostas do presidente, independentemente do quão positivas possam ser para o futuro do país, não resolvem os problemas imediatos da população', disse a carta, assinada por Youri Latortue, ex-premiê do país, e por membros de vários partidos oposicionistas. Nenhum dos membros do partido Lespwa, de Préval, sancionaram o documento.

'As medidas chegam tarde demais e são tímidas demais. É evidente que a maior parte da população não acredita mais na capacidade do governo de adotar medidas corajosas para diminuir a miséria que a população enfrenta hoje', escreveram os senadores.

A maior parte dos haitianos vive com menos de 2 dólares por dia e o país viu-se vitimado por décadas de ditaduras, opressão e caos econômico.

O alto preço dos combustíveis, que encareceram os transportes, a crescente demanda por alimentos na Ásia, a utilização de terras férteis para produzir biocombustíveis, uma acentuada seca na Austrália e a especulação no mercado de futuros somaram-se para elevar o preço dos alimentos no mundo todo.

Houve distúrbios populares em vários países pobres devido à dificuldade em obter comida.

Calma

Não obstante a insatisfação, o apelo de Préval pelo fim dos distúrbios instalou um clima de calma tensa em Porto Príncipe.

Na quinta-feira, não surgiram relatos sobre episódios de violência e as ruas cobertas de vidro estilhaçado dessa capital grande e caótica voltaram a ser percorridas por veículos e vendedores.

Os coloridos táxis da cidade circulavam novamente, mudando o cenário dos últimos dias, quando a capital viu-se abandonada aos grupos enfurecidos de manifestantes.

Os vendedores ambulantes, que desapareceram enquanto milhares de pessoas atiravam pedras contra as forças de paz da ONU e a polícia haitiana, regressaram às calçadas para vender banana e carne de porco.

Um forte esquema de segurança fazia-se valer. Carros blindados transportavam alguns dos 9.000 membros das forças de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) ao passo que policiais civis do Haiti espalhavam-se pelas principais ruas e cruzamentos de Porto Príncipe.

Os soldados da força da ONU, liderada pelo Brasil, usaram bombas de gás lacrimogêneo por dois dias consecutivos para evitar que os manifestantes invadissem o opulento Palácio Nacional.

Alguns dos sublevados avisaram que os protestos poderiam iniciar-se novamente.

Os senadores da oposição que assinaram a carta enviada a Préval e a Alexis deram ao premiê 24 horas para renunciar sob pena de enfrentar uma moção de desconfiança no Senado.

Há 30 cadeiras no Senado do Haiti, mas três estão desocupadas porque dois senadores foram afastados por terem violado os requisitos de elegibilidade e um outro morreu.

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