Senado uruguaio invalida lei que perdoava crimes da ditadura

Medida abre caminho para o julgamento de militares acusados de abusos cometidos entre 1973 e 1985

iG São Paulo |

Reuters
Caberá ao presidente José 'Pepe' Mujica sancionar ou rejeitar a medida
O Senado uruguaio aprovou na noite desta terça-feira um projeto de lei que anula a Lei de Anistia do país. A medida abre caminho para o julgamento de militares acusados de crimes na ditadura militar, entre 1973 e 1985. Após mais de 12 horas de debates, a votação terminou quase empatada, com 16 votos a favor da anulação e 15 votos contra.

O site Observa, do jornal "El Observador", informou que os senadores aprovaram especificamente quatro artigos da chamada 'Lei da Caducidad', sob argumento de que "violam a constituição e carecem de valor jurídico".

As mudanças afetam os militares que ainda não respondem a processo judicial, segundo afirmaram parlamentares da base governista e da oposição. O senador Rafael Michelini, que apoiou o fim da lei de anistia, afirmou que "hoje (terça-feira) é um dia histórico".

O texto deverá ser enviado para a Câmara dos Deputados e a expectativa é que caberá ao presidente José 'Pepe' Mujica sancionar ou rejeitar a medida do legislativo. Mujica era guerrilheiro quando foi preso, inclusive em regime de prisão solitária, nos anos da ditadura uruguaia.

A chamada Lei de Caducidad entrou em vigor em 1986 e foi submetida a dois plebiscitos populares - em 1989 e em 2009 - que a mantiveram em vigor. No entanto, mais recentemente a lei tem sido alvo de ataques neste país de pouco mais de três milhões de habitantes.

No fim de março, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) condenou o Uruguai em um caso interposto por familiares de duas vítimas da ditadura militar e determinou que o país abrisse os arquivos do período. Na opinião da Corte, a lei da anistia constituía um "obstáculo ao esclarecimento dos crimes contra a humanidade durante a ditadura".

O caso levado à Corte foi iniciado pela família do escritor argentino Juan Gelman, que localizou a neta, Macarena, nascida nos porões da ditadura. Os pais da menina estão desaparecidos desde então.

Na segunda-feira, um dia antes da votação, militares da reserva e da ativa divulgaram um comunicado assinado por 1.200 deles, anunciando que entrarão com ação contra o Estado nos tribunais internacionais - a Corte Interamericana de Direitos Humanos e a Corte de Haia.

Em sua argumentação, os processos de 'lesa humanidade' são 'arbitrários e irregulares'. Alguns dos acusados daqueles crimes encontram-se presos, como o ex-presidente do país, Juan Maria Bordaberry, que cumpre prisão domiciliar.

Com BBC

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