Sem trabalho e perspectiva, mães buscam a prostituição no Haiti

Desesperadas, jovens buscam sustento para filhos, oferecendo sexo em vielas escuras por até por US$ 5

Vicente Seda, de Porto Príncipe, Haiti |

A prostituição é uma mazela comum nos países de terceiro mundo. Mas, no Haiti, ela é estimulada pela devastação do terremoto, em que entre 250 mil e 300 mil morreram há um ano. Desesperadas pela falta de emprego e perspectiva, mães vão às ruas de Pétionville, um bairro antes nobre de Porto Príncipe, oferecer o próprio corpo por quantias irrisórias. Apenas o suficiente para garantir a alimentação e moradia dos filhos.

Vicente Seda
Por desespero, mãe solteira, sem trabalho, tornou-se garota de programa após terremoto
Não são todas as garotas de programa que se encaixam nesse perfil. Algumas, profissionais convictas,  recusam-se até a conversar se não houver pagamento. Outras, porém, apesar dos clichês de roupas excessivamente decotadas e abuso na maquiagem, transparecem uma alma solitária de mãe, passando por cima da própria vergonha para conseguir trazer comida à mesa.

É o caso de Mielene Chance, de 24 anos, que sai quase toda noite de Carrefour, o epicentro do terremoto de 2010, para se prostituir em Pétionville, distante de sua casa. Ela começou a se prostituir há seis meses. Com dois filhos, sem marido, entregou-se ao desespero após a tragédia que arrasou o Haiti.

“Claro que não gosto do que faço. Mas faço pelos meus filhos. Não quero que sofram. É uma vida muito arriscada", disse Mielene. "Faço de três a quatro programas por noite. Há clientes que saem e não pagam. Há outros que me deixam em lugares distantes, sem condições de voltar. Já dormi em pé, encostada em uma parece, esperando o dia amanhecer para conseguir chegar em casa”, contou a haitiana, que agradece a Deus por nunca ter sofrido violência física grave, apesar de ter ouvido relatos de ocorrências com outras garotas que perambulam pela mesma calçada.

'Vida digna'

“Tenho dois filhos e cobro de US$ 5 a US$ 15 o programa. Pelo menos consigo dar uma vida um pouco mais digna a eles”, completou a moça, que chegou a pedir dinheiro, mas permitiu ser fotografada mesmo após a resposta negativa.

Um pouco mais acima, em uma rua escura, uma bela e esguia moradora da capital se mostra tímida diante de duas outras garotas de programa que, ao serem indagadas sobre a possibilidade de concederementrevista, proferem palavrões e se irritam.

Mas a dócil Ivette Pierre, 23 anos, ignora as provocações das concorrentes. Nascida na República Dominicana, país situado na mesma ilha que o Haiti, ela contou que o pai a deixou sozinha aos 15 anos. Aconselhada por conhecidos, foi para Porto Príncipe e começou na profissão, sem outras opções para se manter, já que não conseguiu um emprego de manicure - função que realmente gosta de exercer.

“Fiz isso até conhecer um homem que prometeu me tirar dessa vida, me engravidou e acabou ficando com outra mulher. É difícil acreditar nas pessoas. Depois do terremoto, não consegui mais trabalhar, ninguém ajuda, e tenho um filho de 2 anos que preciso criar", contou Ivette. "Gostaria de trabalhar para deixar essa vida, mas não consigo. Não existe emprego. Se eu consigo dinheiro para me manter três semanas, fico três semanas em casa com meu filho. Se não consigo dinheiro, venho para cá”, disse, ao pedir para não ser fotografada.

Circulando pelas ruas do bairro, a reportagem do iG observou aos menos outras 12 garotas de programa, que se mostraram arredias e não quiseram dar entrevista. Algumas aparentavam ser bastante jovens e quase sempre eram abordadas por haitianos a pé, entrando em becos e vielas sem luz ou segurança.

*Repórter viajou a convite do Exército brasileiro no Haiti

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