Sem condições, Paquistão sofre com perda de talentos

Igor G. Barbero.

EFE |

Islamabad, 5 fev (EFE).- A falta de oportunidades no Paquistão, acentuada pela crise de segurança, faz com que pelo menos sete milhões de pessoas deixem o país rumo ao exterior, o que enfraquece a economia local.

Apesar de as remessas do exterior serem uma das principais fontes de receita da debilitada economia paquistanesa, a falta de mão-de-obra qualificada prejudica a indústria nacional.

Nos últimos 50 anos, o envio de dinheiro aumentou em torno de 50%, chegando a US$ 7,8 bilhões anuais - quantia um pouco superior ao crédito que o Governo teve de pedir ao Fundo Monetário Internacional (FMI) no final de 2008.

Analistas entrevistados pela Agencia Efe afirmam que esta situação serve de "boia para um país que nada em ressaca" e que vive constantemente crises em setores como alimentação, eletricidade, gás e, talvez, até de água. Além disso, o clima de insegurança pelo combate ao terrorismo é um agravante.

"As pessoas não aguentam mais a falta de recursos e as contínuas crises. As indústrias não decolam, e há uma notável preocupação com o presente e o futuro", explicou à Efe um funcionário do organismo público responsável pelo atendimento aos cidadãos fora do país.

Segundo a fonte, que pediu anonimato, acima de todos estes fatores há "um extremismo (religioso) muito perigoso, que está levando ao país ao desastre" e fechando a porta a muitas iniciativas econômicas.

"Quase não há investimentos estrangeiros. Nos últimos anos, apenas as empresas de telecomunicações conseguiu mexer um pouco no mercado de trabalho. Muitas famílias se frustram porque investem alto na educação de seus filhos e depois não há chances para eles, ou os salários são baixos", ressaltou.

De acordo com dados do organismo, até sete milhões de paquistaneses vivem fora do território nacional, principalmente em países anglo-saxões como Reino Unido, Canadá e Estados Unidos, e também nos Emirados Árabes e Arábia Saudita.

"Em alguns lugares, os emigrantes se lançam à procura de empregos que ofereçam melhores salários, em sua maioria de classes mais baixas. No entanto, nos EUA e no Reino Unido as pessoas qualificadas representam até 30%", comentou.

"É uma faca de dois gumes. Embora a chegada de remessas seja uma grande ajuda, a fuga de cérebros nos deixa estagnados no subdesenvolvimento", completou.

Colaboram para isso a falta de incentivos de parte do Governo do Paquistão, além da grande oferta de programas, bolsas de estudos e outras facilidades para pessoal qualificado emigrar a alguns países estrangeiros.

"Estudei na Inglaterra e retornei ao Paquistão, como sempre foi meu objetivo. Consegui bons trabalhos graças à minha educação, com um salário aceitável para os padrões daqui. Acaba que não é uma questão econômica, mas de realização profissional e pessoal", lamentou o advogado Shahzad Akbar.

Segundo Akbar, que tenta um visto para a Austrália, os profissionais qualificados acabam "insatisfeitos" por trabalhar no Paquistão.

"Você fica cansado com o nepotismo, a corrupção, a falta de profissionalismo, a facilidade de perder o trabalho pelas mudanças de Governo, a qualidade de vida... o estopim é a insegurança. É pensar se realmente quer que seus filhos cresçam num país em que não se sabe se poderão ir tranquilamente à escola e ao cinema", relatou.

O advogado apontou ainda que, em vez de um fortalecimento da classe média, a impressão é de que as diferenças entre a elite e as camadas baixas da sociedade são cada vez maiores.

Muitos outros paquistaneses consultados pela Efe também pensam em sair do país. Alguns têm a missão mais fácil por terem dupla nacionalidade, graças aos convênios assinados com vários países ou pelos vínculos familiares.

Aqueles que tomam o caminho de volta experimentam sensações que, para os observadores, "beiram frequentemente a esquizofrenia".

"Um companheiro voltou recentemente ao Paquistão, após décadas nos EUA, e aguentou oito meses. Acontece muito. Você se acostuma com uma coisa e, quando retorna, não funciona da mesma forma", lamentou o funcionário do organismo público. EFE.

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