Secretário-geral ibero-americano diz que A. Latina é vítima da crise mundial

Pilar Valero. Nações Unidas, 26 set (EFE).- O secretário-geral ibero-americano, Enrique Iglesias, afirmou hoje que a América Latina sente frustração por ser vítima e não ator da crise mundial, que tarde ou cedo afetará a região.

EFE |

Em entrevista à Agência Efe, Iglesias avaliou a presença latino-americana na Assembléia Geral da ONU, na qual predominaram os debates sobre os efeitos da crise financeira mundial, originada nos Estados Unidos, para os países emergentes.

A América Latina está mais preparada do que nunca "para fazer frente a essa crise, os países seguem crescendo", mas também é certo que se for prolongada (...), mais cedo ou mais tarde atingirá nossa região, alertou.

Iglesias advertiu também sobre o impacto para a América Latina da crise no preço e nas importações de matérias-primas, das dificuldades de acesso ao crédito e da diminuição das remessas dos emigrantes a seus países de origem.

Os chefes de Estado e de Governo latino-americanos reiteraram, no marco da Assembléia da ONU, que a solução à crise deve vir do multilateralismo e da reforma das instituições financeiras internacionais.

"As receitas" que estão sendo aplicadas estão bastante distantes "das que tivemos" na década de 80 e 90 para enfrentar os problemas, ressaltou Iglesias.

Esse mesmo alerta foi feito na tribuna da ONU por alguns presidentes latino-americanos, especialmente pela chefe de Estado argentina, Cristina Fernández de Kirchner, que pediu aos EUA que não dêem mais "lições nem receitas" econômicas ao mundo.

Iglesias estimou ainda que há uma expectativa generalizada que é preciso tomar medidas, sobretudo por parte dos EUA e da União Européia (UE), que "são os grandes atores neste processo de crise".

É preciso recuperarmos a confiança, "porque o sistema capitalista funciona sob a base da confiança" e quando se afeta esse pilar, "tudo entra em crise", explicou.

Segundo ele, houve reações importantes dos bancos centrais e medidas adicionais do presidente americano, George W. Bush, mas isso ainda está muito distante "da tranqüilidade" necessária.

"Estamos frente a um desafio muito grande, onde ninguém" deixará de sofrer seu impacto, ressaltou.

Segundo ele, a recessão supõe que há países que compram menos matérias-primas, dão menos crédito e onde se perdem postos de trabalho, e a América Latina depende muitíssimo das remessas de seus emigrantes.

"Se a recessão continuar no norte, os emigrantes não trabalham e vão enviar muito menos dinheiro à América", ressaltou.

A América Latina completou um ciclo histórico de seis anos de crescimento e se estima que em 2008 cresça 4,5%, segundo previsões do FMI, que alertou sobre um risco de aumento da inflação e que os países mais pobres serão os mais afetados pela desaceleração mundial.

Em paralelo à Assembléia da ONU, foi realizada uma reunião da Cúpula da União de Nações Sul-americanas (Unasul), integrada por 12 países, para revisar a evolução da crise política e social vivida na Bolívia.

"Um dos fenômenos da América Latina" que se vê "com muita clareza é que há maior maturidade política para tratar os problemas regionais" e, é muito melhor quando estes podem ser resolvidos coletivamente, disse Iglesias.

Ele afirmou que, embora persistam tendências populistas na América Latina e, em momentos de abundância de dinheiro haja uma tendência a se gastar mais, há maturidade na gestão econômica.

De acordo com ele, os países estiveram gastando bem, reduzindo dívida e acumulando reservas, pois a América Latina está mais preparada "do que esteve em ocasiões anteriores", acrescentou.

Em relação à cúpula ibero-americana que acontecerá em San Salvador no final de outubro com o tema central de "Juventude e Desenvolvimento", Iglesias destacou que um grande desafio da região é a formação de recursos humanos e a preparação de jovens para suas responsabilidades.

O secretário-geral ibero-americano disse esperar da cúpula de San Salvador uma declaração "muito rica" e um plano de ação. EFE vai/ab/rr

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