Sarkozy reina na política francesa em meio às divisões dos socialistas

O fracasso do Congresso do Partido Socialista francês, que se mostrou, no fim de semana, incapaz de escolher um líder e definir sua linha política, ou seja, entre se manter ancorado na esquerda e cair na tentação centrista, deixa o presidente Nicolas Sarkozy como único soberano do jogo político.

AFP |

Ao final de três dias de confrontos fratricidas entre os diferentes líderes de cada grupo, entre eles a ex-candidata à presidência Ségolène Royal, o principal partido francês de oposição terminou seu congresso dividido e sem uma orientação definida. Ficará nas mãos dos militantes, que votam na quinta-feira, escolher entre três candidaturas.

Ségolène Royal enfrentará Martine Aubry, que avançou uma posição no xadrez político ao conseguir o apoio do prefeito de Paris, Bertrand Delanoë. Esse duelo será arbitrado por Benoît Hamon, terceiro candidato e representante da ala esquerdista do partido.

Sem nenhuma surpresa, a direita no poder se apressou em ridicularizar, um ano e meio depois da vitória de Sarkozy sobre Ségolène, o show "aflitivo" de um partido em franca decadência, um "grande Barnum socialista" (referência ao Circo Barnum, famoso por suas excentricidades), com "golpes baixos" e "o máximo de confusão".

Ao voltar da cúpula do G-20, em Washington, a ministra da Economia, Christine Lagarde, ironizou o contraste das divisões internas dos socialistas com os esforços dos chefes de Estado para enfrentar a crise mundial, campo no qual, segundo ela, o presidente Sarkozy multiplicou as iniciativas, nas últimas semanas, à frente da UE.

"É um choque, quando você volta para Paris e vê as discordâncias, as dissensões, as explosões nos partidos. Ah, sim, devo dizer que o show do Partido Socialista era bastante aflitivo", comentou.

A imprensa e os analistas destacaram que as divergências do PS vêm fazendo a festa de seus adversários na arena política - a começar por Sarkozy.

O presidente Nicolas Sarkozy "tem, a partir de agora, um aliado para continuar o trabalho de detonador da oposição: o próprio PS", dizia a manchete do jornal de esquerda "Libération" desta segunda-feira.

"Os socialistas deveriam falar aos franceses, sobretudo, nesse momento em que a incerteza cresce com a crise", mas "todas as boas intenções fracassaram na realidade de uma disputa pelo comando", avaliou o cientista político Pascal Perrineau, acrescentando que "o grande vencedor é, evidentemente, Nicolas Sarkozy".

O paradoxo é que a crise financeira e econômica deveria favorecer a esquerda, frente a um presidente eleito com um programa liberal e marcadamente à direita, ressalta Philippe Braud, professor da conceituada Sciences Po.

"Não é o que acontece, porque, diante da crise, a resposta passa por uma política keynesiana e intervencionista, e Nicolas Sarkozy conseguiu conciliar, com plena consciência, o arsenal da esquerda", reduzindo a margem de manobra da oposição socialista, explica Braud.

Ele ressalta que, desde o dia seguinte de sua vitória nas urnas, em 2007, Sarkozy perseguiu a tarefa de minar a oposição de esquerda, praticando uma política "de abertura".

"Ele deu um golpe de mestre, ao conseguir seduzir Bernard Kouchner (ministro das Relações Exteriores) e algumas outras personalidades de esquerda e ao afastar Dominique Strauss-Kahn", um dos líderes do PS preferidos dos franceses, agora à frente do Fundo Monetário Internacional (FMI), graças a seu apoio", completou.

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