Paris, 24 abr (EFE).- Próximo a completar um ano de governo, o presidente francês Nicolas Sarkozy reconheceu nesta quinta-feira que cometeu erros, mas segue com a idéia de manter o rumo das reformas e pediu tempo a seus compatriotas decepcionados.

Em longa entrevista concedida no Palácio do Eliseu, o presidente explicou e defendeu as numerosas reformas já lançadas e insistiu que a França deve promover tais mudanças para não ficar para trás na globalização.

Recentemente, pesquisas mostraram um alto índice de frustração dos franceses com o seu primeiro ano de mandato e com as promessas de campanha não cumpridas.

Sarkozy explicou que promoveu tantas reformas ao mesmo tempo porque "nesta sociedade complexa" elas estão relacionadas.

Já em relação às críticas à falta de melhora do poder aquisitivo, sua principal promessa eleitoral, o presidente disse que a França esteve submetida a um "choque quádruplo" desde sua posse: o encarecimento do petróleo e das matérias-primas, a alta do euro a níveis recorde frente ao dólar e a crise financeira global derivada das hipotecas nos Estados Unidos.

Sarkozy voltou a exigir regras internacionais para que não se repitam crises como a dos EUA e insistiu na necessidade de "moralizar" o capitalismo. O governante argumentou que o contexto internacional "complicado" é uma razão a mais para "acelerar as reformas".

"Vejo de forma positiva esse descontentamento, mas sei aonde vou.

Sei muito bem que não há outra estratégia", afirmou o presidente.

Sarkozy disse saber que há "decepções, problemas e dificuldades", mas afirmou que "estava preparado para isto". Além disso, reconheceu que a vida dos franceses não melhorou "o bastante" em um ano.

Eleito com a promessa de "reabilitar o valor do trabalho", o presidente defendeu o aumento das horas-extras, que já beneficiou 5,5 milhões de trabalhadores, segundo Sarkozy.

Após afirmar que os preços nos supermercados subiram "mais" na França do que em outros países europeus, o governante prometeu uma lei para forçar uma maior concorrência na grande distribuição e outra, em breve, para ampliar a participação dos trabalhadores no lucro de suas empresas.

Foi praticamente o único anúncio concreto da entrevista além da implantação da "renda de solidariedade ativa", que serviria para encorajar os desempregados a se recolocar no mercado de trabalho.

Sarkozy disse que não cederá aos protestos de alunos e professores, manterá a não substituição de um de cada dois funcionários que se aposentem - o que permitirá "reduzir" o déficit em 2012-, e se estenderá a 41 anos o período de cotação para as pensões.

Em relação à greve de trabalhadores imigrantes ilegais na região de Paris para regularizar sua situação, Sarkozy descartou toda "regularização global", pois isto levaria a "uma catástrofe".

Embora a política interna tenha sido o principal assunto da entrevista, foram abordados temas como a tensão no Tibete e a tumultuada passagem em Paris da tocha olímpica dos Jogos Olímpicos de Pequim.

Sarkozy disse que ficou chocado com a violência no Tibete, mas ressaltou a importância da China no mundo e afirmou que não se deve isolar o país asiático.

O presidente francês afirmou que tentou "criar condições para um diálogo" entre as autoridades chinesas e o dalai lama, líder espiritual do Tibete. Além disso, Sarkozy disse que ainda não decidiu se vai comparecer à cerimônia de abertura dos Jogos.

"Faltam quatro meses", disse o governante, que assumirá a presidência rotativa da União Européia e buscará um consenso sobre o assunto com seus colegas do bloco.

Sarkozy também defendeu sua decisão de enviar reforços militares ao Afeganistão e assegurou que organizará um plebiscito sobre a entrada da Turquia na UE, à qual "sempre" se opôs.

No entanto, o presidente não falou sobre o movimento islâmico palestino Hamas ou o presidente do Irã, que querem "apagar a Israel do mapa".

Sarkozy também prometeu não medir esforços para conseguir a libertação de Ingrid Betancourt, refém das Farc desde 2002, e espera que o presidente venezuelano, Hugo Chávez, siga ajudando na situação. EFE ao/plc

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