Sarkozy reconhece erros da França no genocídio em Ruanda

Kigali, 25 fev (EFE).- O presidente da França, Nicolas Sarkozy, não se desculpou, mas reconheceu hoje que seu país cometeu erros políticos graves durante o genocídio de 1994 em Ruanda, no qual estima-se que entre 800 mil e um milhão de pessoas tenham morrido.

EFE |

Sarkozy chegou hoje a Ruanda para se reunir com o presidente Paul Kagame e tentar encerrar 16 anos de tensão nas relações bilaterais, salpicadas por acusações mútuas relacionadas ao genocídio.

Na curta visita à capital Kigali, a primeira de um chefe de Estado da França desde os massacres, Sarkozy reconheceu que a missão militar francesa que devia proteger os deslocados, refugiados e civis em perigo durante o genocídio "foi pouca" e chegou "tarde demais".

Após uma ruptura de três anos, os dois países retomaram as relações diplomáticas no final de 2009. A França acusava Kagame e nove funcionários do Governo de terem derrubado, em abril de 1994, o avião do então presidente ruandês, Juvenal Habyarimana, fato que desencadeou os massacres de tutsis e membros moderados da etnia hutu.

O presidente de Ruanda rejeitou taxativamente as afirmações da França, a quem acusou de dar treinamento militar e encobrir os mentores dos massacres, muitos dos quais se exilaram em território francês após o genocídio.

"Houve um grave erro de critério, uma espécie de cegueira que não nos permitiu antecipar o plano genocida", disse Sarkozy durante uma entrevista coletiva ao lado de Kagame.

"Cometemos aqui erros de cálculo e políticos que tiveram consequências absolutamente trágicas", assinalou o presidente francês, que, no entanto, não pediu desculpas em nome da França.

Antes da entrevista, Sarkozy depositou flores no memorial ao genocídio, construído em Kigali perto de uma vala comum onde estão os corpos de cerca de 250 mil vítimas do massacre.

Após visitar o museu do genocídio, no qual a França é responsabilizada por um "papel ativo no treinamento e armamento do Exército ruandês em 1994", Sarkozy escreveu no livro de visitantes.

"Em nome do povo francês, me curvo perante as vítimas do genocídio. A humanidade manterá para sempre a memória desses civis inocentes e seu martírio", diz o presidente francês no livro.

Segundo Sarkozy, a França e a comunidade internacional não puderam ver as "dimensões genocidas" do Governo hutu de Ruanda antes de começarem os massacres de 1994.

Kigali solicitou a Paris que leve à Justiça os genocidas fugitivos que vivem na França, incluindo Agatha Habyarimana, viúva do Presidente ruandês.

"Queremos que os responsáveis pelo genocídio sejam encontrados e castigados, mas na França a Justiça é independente" da política, ressaltou o presidente francês.

Já Kagame disse que os dois países tiveram um "passado problemático", mas declarou estar compromissado com as novas relações em assuntos de cooperação em saúde, educação, investimentos, comércio e cultura.

"É importante para os povos de Ruanda e França edificar uma nova relação baseada no entendimento e numa apropriada gestão e tratamento da verdade", disse Kagame.

Segundo analistas políticos, a aproximação com Ruanda evidencia o pragmatismo da França frente aos amplos interesses econômicos na África e a visita de Sarkozy é crucial nas intenções de Paris de manter uma influência relevante na região dos Grandes Lagos.

A França restaurou as relações diplomáticas com Ruanda em 30 de novembro passado, um dia depois de a Commonwealth britânica se declarar parceira do país africano, antiga colônia belga e que antes do genocídio de 1994 teve forte influência de Paris.

Kagame aceitou o convite de Sarkozy para participar da cúpula França-África, que será realizada em Nice em maio próximo. EFE hh/rr

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