Sarkozy homenageia soldados franceses que desobedeceram ordens

Por Philippe Wojazer DOUAUMONT, França (Reuters) - O presidente da França, Nicolas Sarkozy, homenageou nesta terça-feira centenas de soldados da 1a Guerra Mundial mortos a tiros por desobedecerem ordens, numa mudança de tom para a celebração do Dia do Armistício. Essa é primeira vez que a data foi lembrada sem um veterano francês vivo.

Reuters |

Mais de 600 soldados da França foram executados por seus próprios companheiros durante a 1a Guerra Mundial, muitos deles por desobedecerem ordens quanto a continuarem lutando depois de uma série de ofensivas malsucedidas e sangrentas no nordeste do país, em 1917.

"A França nunca se esquecerá dos filhos que morreram em nome dela", disse Sarkozy em um discurso no qual homenageou os mortos franceses e de outros países aliados, incluindo explicitamente os mortos por atos de covardia ou motim.

"Eu penso a respeito desses homens dos quais se exigiu tanto, que ficaram tão expostos, que foram algumas vezes enviados para serem massacrados devido a erros cometidos por seus comandantes, esses homens que, um dia, não tiveram mais forças para lutar", afirmou o presidente.

Os motins de 1917, em meio aos quais muitos regimentos recusaram-se a sair de suas próprias linhas, alimentaram temores entre os líderes franceses de que o Exército poderia ruir. Os superiores responderam adotando medidas duras contra os soldados que desobedeceram às ordens de lutar.

A 1a Guerra Mundial, que ocorreu em grande parte dentro do território francês, entre 1914 e 1918, custou a vida de 1,4 milhão de franceses e continua a ocupar um lugar de destaque na memória coletiva do país. No entanto, aumenta o debate sobre a melhor forma de lembrar o conflito.

O Dia do Armistício deste ano foi o primeiro a ser celebrado sem a presença de um veterano francês. No começo de 2008, morreu Lazare Ponticelli, um imigrante nascido na Itália que ingressou na Legião Estrangeira aos 16 anos de idade. Ponticelli era o último sobrevivente francês da 1a Guerra.

Em seu discurso, proferido no local da Batalha de Verdun e não diante do Arco do Triunfo, em Paris, conforme o costume, Sarkozy disse que havia chegado a hora de reconhecer o fato de vários dos executados terem sido exigidos para além do humanamente suportável.

"Aquela guerra total descartou qualquer tipo de indulgência, qualquer tipo de fraqueza. Mas, 90 anos depois do fim do conflito, eu gostaria de dizer, em nome da nossa nação, que muitos dos executados não se desonraram, não foram covardes, mas chegaram ao limite de suas forças."

O discurso não fez menção a qualquer perdão póstumo, mas o ministro encarregado da questão dos veteranos disse no começo deste ano que a França avaliaria a possibilidade de limpar a ficha dos vários soldados mortos por recusarem-se a obedecer ordens.

Em 2006, a Grã-Bretanha perdoou postumamente 306 homens executados por deserção ou covardia durante a 1a Guerra Mundial, muitos dos quais seriam vítimas de traumas psicológicos.

Já houve várias tentativas na França de reabilitar os soldados mortos para servir de exemplo, e dezenas deles tiveram as fichas limpas na década de 30. Mas a tentativa séria mais recente a esse respeito viu-se rejeitada em 1998, pelo então presidente francês, Jacques Chirac.

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG