O presidente francês, Nicolas Sarkozy, anunciou nesta quarta-feira o retorno da França à estrutura de comando militar da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). A decisão ocorre 43 anos após o general Charles de Gaulle, presidente da época, ter anunciado a saída da França do Estado Maior da Otan em nome da soberania de seu país.

Em 1966, o general De Gaulle havia tomado a decisão de retirar a França do comando integrado da Otan (instância decisória das operações militares) por se recusar a deixar que os armamentos nucleares franceses pudessem ficar sob controle dos americanos, que sempre comandaram a organização, desde sua criação, em 1949.

A decisão do general De Gaulle até hoje é interpretada por muitos franceses como um símbolo do não alinhamento da França à política externa dos Estados Unidos.

"Dizem que a Otan é dominada pelos Estados Unidos. Como podemos querer que a Europa assuma seu papel se a França está fora do comando da organização?", disse o presidente Sarkozy na tarde desta quarta-feira em um aguardado discurso na Escola Militar de Paris.

"Ao concluirmos esse longo processo, a França será mais forte e influente. A França deve codirigir em vez de ser passiva. Devemos estar onde as decisões e as normas são elaboradas ao invés de aguardar lá fora que sejamos notificados", declarou o presidente francês em um discurso que procurou combater a polêmica em relação à decisão.

O anúncio de Sarkozy causa polêmica no país e até mesmo divisões entre os próprios políticos de seu partido, o UMP, que conta com vários "gaullistas" tradicionais, fiéis à visão de independência da diplomacia francesa.

Alguns avaliam que a decisão enfraqueceria a política externa da França e que a posição do país ficaria agora misturada à da Otan, perdendo, portanto, sua especificidade no cenário internacional.

Além disso, estima-se que o retorno da França ao comando militar da organização poderia pôr fim ao projeto de criação de uma defesa europeia.

"Vamos ficar com os pés e mãos amarrados aos americanos", afirmou o deputado François Goulard, do UMP. Segundo ele, cerca de 40 deputados do partido de Sarkozy criticam a volta da França ao Estado Maior da Otan.

O ministro francês da Defesa, Hervé Morin, afirmou que "é má-fé ou incompetência considerar que o retorno da França à estrutura de comando militar da Otan representa uma ameaça à independência do país".

Sarkozy também assegurou que a França manterá sua independência em relação ao seu poderio nuclear e que o país continuará tendo liberdade para decidir o envio de tropas do país em operações da Otan.

Os que apoiam a decisão de Sarkozy afirmam que, na prática, nada mudará para a França, já que o país vem participando, desde os anos 90, de operações militares no âmbito da Otan, embora não faça parte do planejamento dessas missões por não possuir nenhum general em postos de responsabilidade na organização.

A França, co-fundadora da Otan, nunca deixou de fazer parte da organização, embora tenha deixado o Estado Maior. O país participa atualmente de operações em Kosovo e no Afeganistão e representa a quarta maior força militar da Otan.

Em troca de seu retorno ao comando integrado da Otan, a França receberá dos Estados Unidos dois postos de prestígio: o de Lisboa, que reúne a força de reação rápida, e o de Norfolk, na Virgínia, encarregado de chefiar as reformas na Aliança Atlântica. A volta da França à estrutura militar da Otan será votada pelo Parlamento francês no dia 17 março.

Para evitar surpresas, o governo utilizou uma medida chamada "engajamento de responsabilidade", que implica demissão do primeiro-ministro caso o texto não seja aprovado. Na prática, isso impede que a maioria parlamentar, do partido de Sarkozy, vote contra a decisão do presidente.

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