Nedim Hasic Sarajevo, 22 jul (EFE).- Os cidadãos de Sarajevo comemoraram a prisão de Radovan Karadzic como o fim da impunidade para quem ordenou a sangrenta operação militar na capital bósnia, transformada em símbolo da violência destruidora do nacionalismo sérvio.

Nermin Habota, um morador da região, perdeu seu irmão Emir durante a operação na cidade em virtude de tiros dados por um franco-atirador quando ambos viajavam de ônibus.

A prisão representou para ele um pouco de conforto: "Meu irmão morreu e nada fará com que ele volte, mas estou contente por terem capturado (Karadzic). Significa muito para todas as vítimas aqui.

Entretanto, tenho certeza de que poderiam tê-lo prendido muito antes. Isto é o que me deixou furioso todo este tempo", declarou à Agência Efe.

Nermin não saiu às ruas para festejar a prisão do suposto criminoso de guerra, como fizeram dezenas de seus concidadãos ao grito de "Isto é a Bósnia" para expressarem sua alegria pela captura do responsável pela maior operação militar contra uma cidade européia desde a Segunda Guerra Mundial.

Durante os três anos e meio em que Sarajevo esteve na mira da artilharia e dos franco-atiradores sérvios, morreram mais de 10 mil pessoas, entre elas mil crianças.

Nem a forte chuva desanimou os moradores, como Irhad Rizvo, que afirmou que ao saber da notícia não pôde conter a emoção e começou "a chorar". Disse sentir "algo parecido com a liberdade, um alívio.

Finalmente foi feita justiça", encerrou.

A Polícia servo-bósnia reforçou a proteção às mesquitas e às igrejas na República Sérvia da Bósnia após ser divulgada a notícia da detenção para evitar possíveis incidentes.

O ex-jogador de futebol Predrag Pasic, que defendeu o Stuttgart e que atualmente dirige a escolinha da Inter de Milão em Sarajevo, explicou como conheceu Karadzic, nos anos 80.

Nesta época trabalhava como psicólogo esportivo do Sarajevo FC, antes de ganhar o Campeonato Iugoslavo, e sua função era levantar o moral dos jogadores.

"Antes e após cada partida (Karadzic) conversava conosco. Mas não foi muito bem-sucedido. Éramos muito jovens e loucos para escutarmos todas as suas histórias sobre mentalidade vencedora", declarou o ex-atleta.

Pasic lembrou que ele justificava seus fracassos afirmando que Sarajevo não era seu lar e que a cidade o rejeitava. Disse que Karadzic falou para ele se transferir para a equipe do Estrela Vermelha, de Belgrado.

"Disse-me que, como sérvio, devia jogar na Sérvia. Era algo muito estranho neste tempo, ninguém mais pensava em termos étnicos", lembrou o ex-jogador.

Mustafa Ceric, o líder dos muçulmanos bósnios, expressou sua satisfação com a captura do foragido e desejou ver "Ratko Mladic na prisão de Haia. Hoje a verdade, a paz e a reconciliação venceram na Bósnia".

"A mensagem é que nunca se deve perder a fé na Justiça. Devemos estar unidos para trabalharmos em um futuro melhor. Esta é a prova de que todos serão responsáveis pelo que fizeram no passado", acrescentou.

Sead Numanovic, um dos colunistas de maior prestígio da Bósnia, do jornal "Dnevni Avaz", afirmou que a detenção facilita o processo de reconciliação e que toda a região "entra em uma nova fase em suas relações".

"Praticamente todo o Estado político e militar (servo-bósnio) em tempo de guerra estará em Haia. Isto é suficiente para todos compreenderem a natureza e a dimensão dos crimes na Bósnia", acrescentou Numanovic.

Porém, nem todos na Bósnia estão contentes com a detenção. Branko Dukic, o presidente servo-bósnio, assegurou que "os líderes muçulmanos Alija Izetbegovic e Haris Silajdzic deveriam ter passado por Haia antes de Karadzic".

"Todos sabemos que o Tribunal de Haia é anti-sérvio, mas espero que dêem a possibilidade a Karadzic de ter um julgamento justo", concluiu Dukic. EFE ns/fh/fal

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