Concepción/Santiago do Chile, 28 fev (EFE).- Saques e dor pelas vítimas e pela descoberta de mais áreas destruídas se somavam hoje com o lento retorno à normalidade, no dia seguinte ao terremoto que semeou morte e desolação do centro ao sul do Chile.

O pesadelo vivido no sábado durante dois eternos minutos foi vivenciado hoje às 8h28 com um tremor de 6,2 graus na escala Richter que abalou novamente a mesma região afetada pelo terremoto de mais de 8 graus que causou mais de 700 mortos, 2 milhões de desabrigados e danos ainda não quantificados.

Enquanto as regiões do sul seguiam sem água potável, eletricidade e combustíveis, com as comunicações afetadas por frequentes cortes e com episódios de saques, a vida em Santiago começou a dar sinais de normalidade.

Os serviços básicos estão sendo restabelecidos, algumas lojas reabriram as portas neste domingo, o metrô começou a circular e também, embora em menor medida, o transporte de superfície, e o aeroporto de Santiago recebeu seu primeiro voo desde o terremoto, operado pela companhia LAN e procedente do Peru.

Em Concepción, uma das cidades mais afetadas, pessoas desesperadas saquearam um supermercado "Líder", da rede americana Wal-Mart, onde a maioria das pessoas se apropriou de alimentos e outros artigos de primeira necessidade, embora alguns tenham aproveitado para roubar eletrodomésticos, televisores e equipamentos de som.

A Polícia utilizou gás lacrimogêneo para dispersar os saqueadores. Após a confusão, a própria polícia, no entanto, autorizou a entrada de mulheres para que pegassem comida, leite, fraldas, papel higiênico e outros produtos básicos.

A prefeita da cidade, Jacqueline van Rysselberghe, exigiu do Governo o envio de militares para "restabelecer a ordem".

"São necessários militares nas ruas, porque o caos impera", assinalou Rysselberghe à "Rádio Cooperativa".

A prefeita criticou as autoridades por não enviar com rapidez bombeiros e equipes para resgatar os sobreviventes de um prédio de 14 andares que desabou no centro de Concepción.

"Foi impressionante", contou um dos moradores que conseguiu escapar. Ele contou que o prédio começou a balançar e logo em seguida e caiu.

A estrutura, de 80 departamentos, está agora com uma altura equivalente a um prédio de três andares e entre os escombros.

Segundo a prefeita, de 80 a cem pessoas ficaram soterradas, algumas das quais ainda podem estar vivas.

Os bombeiros já resgataram três corpos e perfuraram os muros para facilitar a entrada de ar aos setores onde é possível ouvir pedidos de socorro.

Embora este seja o caso mais dramático, o de Concepción não é o único prédio que ruiu. Episódios como este se repetiram em Santiago, Viña del Mar e outras cidades.

O bispo católico Alejandro Goic, presidente da Conferência Episcopal, criticou as empresas que "para pouparem alguns pesos", construíram prédios que agora se transformam em armadilhas para seus moradores porque não são seguros para "um país sísmico".

A dor pela tragédia se acentuou hoje ao saber ocorrido em algumas áreas litorâneas de Maule, destruídas por um maremoto que ocorreu 20 minutos após o terremoto.

Na localidade de Constituición, a onda arrasou inúmeros restaurantes, pubs, discotecas, pousadas e hotéis turísticos situados em frente à praia.

"Tudo desapareceu; salvei só o que levava no corpo", disse à "Rádio Cooperativa" um dos afetados, enquanto a televisão mostrava móveis, bicicletas, cadeiras, brinquedos, veículos e outros objetos que a onda esparramou pela praia.

Caminhões pesados carregados de madeira foram arrastados para o alto de uma colina pela onda gigante, que causou estragos nas localidades de Pelluhue e Iloca, entre outras.

As autoridades regionais, que hoje percorriam a região, temem que o episódio tenha deixado uma grande quantidade de vítimas.

Apesar de toda essa destruição, o solo continua tremendo no Chile, com um total de 110 réplicas registradas desde o momento do terremoto, às 03h36 de sábado, a metade delas com magnitudes superiores a 5 graus na escala Richter.

A última, às 08h28 de domingo, alcançou uma magnitude de 6,2 graus, conforme o Serviço de Geologia dos Estados Unidos (USGS) e afetou de Valparaíso, no norte, a Concepción, no sul, em uma extensão superior a 600 quilômetros.

O tremor aumentou a destruição de alguns locais já danificados, disse Carmen Fernández, diretora do Escritório Nacional de Emergência (Onemi).

Um analista do Serviço Sismológico da Universidad de Chile corrigiu o cálculo de 8,3 graus Richter para o terremoto de sábado que o organismo divulgou ontem e disse que na realidade a magnitude ficou entre 8,6 e 8,8 graus, o que coincide com o assinalado pelo USGS. EFE rt/dm

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