Santa Sé concede estado laico a Fernando Lugo em uma decisão histórica

Assunção, 30 jul (EFE).- Em uma decisão sem precedentes, a Santa Sé concedeu o estado laico ao bispo paraguaio Fernando Lugo, que no dia 15 de agosto assumirá a Presidência de seu país e que desde janeiro de 2007 estava suspenso por se dedicar à política.

EFE |

O núncio apostólico no Paraguai, Orlando Antonini, anunciou hoje a decisão do papa Bento XVI após uma reunião com o futuro governante na sede da Aliança Patriótica para a Mudança (APC), a coalizão que no pleito de abril passado acabou com 61 anos de hegemonia do Partido Colorado.

O decreto da Congregação para os Bispos, com data do dia 30 de junho e assinado pelo prefeito da entidade, Giovanni Battista Re, afirma que "Sua Santidade Bento XVI concedeu a ele (Lugo) a retirada do estado clerical com a conseguinte perda dos direitos inerentes ao mesmo".

Lugo, de 57 anos, foi liberado ao mesmo tempo "dos votos religiosos feitos na Sociedade do Verbo Divino, da obrigação do celibato e das demais obrigações que o estado clerical comporta", diz o documento lido por Antonini aos jornalistas.

O ex-bispo da diocese de San Pedro (centro), a região mais pobre do Paraguai e na qual trabalhou em pouco mais de uma década, tinha sido suspenso "a divinis" pelo Vaticano em janeiro de 2007 depois de pedir à Santa Sé sua transferência para o estado laical no dia 18 de dezembro de 2006.

Lugo, uma das referências da Teologia da Libertação em seu país, foi advertido de outras sanções caso não desistisse de suas aspirações políticas, mas no dia 25 de dezembro anunciou sua renúncia, pois a Constituição paraguaia desabilita os religiosos de qualquer confissão para exercer a Presidência ou a Vice-Presidência.

O decreto do Vaticano explica que a Presidência do país que será exercida por Lugo "não é compatível com as obrigações do Ministério episcopal do estado clerical" e afirma que este fato "exigiu voltar a considerar" a primeira decisão de rejeitar sua pretensão de retornar ao estado laico.

Acrescentou que a escolha de Lugo "exigiu voltar a considerar, pelo bem do país e para que se distinga claramente de forma definitiva entre a mudança do presidente da República e o exercício do Ministério episcopal, o pedido que apresentou para que lhe fosse concedida a retirada do estado clerical".

Antonini esclareceu que a decisão, que libera Lugo dos votos religiosos e do celibato, "por si mesma teria uma natureza perpétua a menos que a autoridade suprema examine caso por caso".

"O máximo pontífice exorta ao senhor Fernando Lugo Méndez que seja fiel à fé católica, na qual foi batizado, e leve uma vida coerente com o Evangelho", acrescenta o documento em cujo pé a Nunciatura esclarece que sua atuação no caso "se deveu exclusivamente a razões canônicas e pastorais".

O caminho assumido por Lugo dividiu os membros da Conferência Episcopal Paraguaia (CEP), já que em um país de maioria católica alguns afirmam que quem assume o bispado, o assume por toda a vida.

Por outro lado, outros apoiaram abertamente a decisão do presidente eleito de seguir o caminho da política.

Por outro lado, o governante eleito afirmou hoje em uma entrevista coletiva que recebeu a decisão como uma "notícia esperada por muito tempo".

Lugo agradeceu "sinceramente a Sua Santidade por uma decisão que não foi fácil para o Vaticano, pois não há precedentes". Esta é a primeira vez que se permite que um bispo retorne ao estado laico.

"Que amor deve ter Bento XVI por nosso país", afirmou Lugo ao declarar que uma parte do decreto da Santa Sé afirma que a dispensa foi tomada "pensando no país, no Paraguai". EFE lb/fal

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