Santa Cruz é símbolo da complexidade de uma Bolívia dividida

Javier Otazu. Santa Cruz (Bolívia), 16 set (EFE).- A cidade boliviana de Santa Cruz de la Sierra, centro do movimento autonomista e opositor ao Governo de Evo Morales, é um símbolo da complexidade de um país dividido entre dois modelos quase irreconciliáveis.

EFE |

A cidade, de quase 1,5 milhão de habitantes, é capital do departamento (estado) mais próspero de toda a Bolívia, que ocupa um terço do território do país e abriga 2,6 milhões de cidadãos, 27% do total.

Embora seja o centro da Bolívia tropical e colonial, onde os sobrenomes ilustres são ainda os das grandes famílias que dominam a economia e a política local, basta deixar a região urbana para ingressar em outra realidade.

Um terço dos cidadãos de Santa Cruz vivem hospedados em um enorme bairro humilde conhecido como Plan 3000, habitado em sua maioria por indígenas vindos do oeste andino nos últimos 30 anos.

Como é de mau gosto se chamar de branco diante de um índio, os locais utilizam os termos cambas e collas para mascarar um racismo do qual se acusam mutuamente.

Na tarde de domingo, a boa sociedade de Santa Cruz se reúne na Plaza de las Armas, centro da cidade, para ouvir a missa como Deus manda na Basílica, que enche até que seja necessário tirar cadeiras de plástico para as centenas de pessoas que a ouvem da rua.

Jovens cambas se armam pouco antes da missa maior com paus e máscaras a vista de todo o público, convocados pela União Juvenil de Santa Cruz (UJC), força de choque do autonomismo mais radical, até o ponto em que vários deles chegam a dizer que não são bolivianos, mas simplesmente cruceños.

"Eles não nos querem, e nós não os queremos", diz Angelo Céspedes, vice-presidente da união, antes de assistir a uma estrondosa queima de fogos por parte de seus meninos em plena praça, foguetes de grande calibre que não parecem incomodar ninguém.

"Neste país, até os militares e os policiais estão com o MAS", diz Angelo, em referência ao partido do presidente Evo Morales.

Porém, ele afirma que a UJC e os "comitês cívicos" contam com 20 mil filiados e não temem ninguém.

"O problema é que os unionistas se acham os donos de Santa Cruz", opina Mariela Mendoza, uma jovem que trabalha em uma sapataria no coração de Plan 3000.

Mariela considera que o problema está em que seus vizinhos dos bairros ricos se negam a aceitar Morales.

"Chega ao poder uma pessoa sem educação nem cultura, mas com enorme carisma, que ainda o faz bem. E o de Santa Cruz, que é trabalhador, estuda e se prepara, não aceita que qualquer um lhe governe", disse ela.

A retórica indigenista, populista e socialista de Evo Morales tem muitos partidários no Plan 3000, mas em Santa Cruz provoca feridas.

A elite de uma cidade que se fez, que soube criar riqueza da agricultura, da pecuária, da indústria e do comércio, antes da chegada dos hidrocarbonetos, não aceita "um presidente que quer impor um modelo cubano", como diz um engenheiro identificado como Fernando Gutiérrez.

Só os jovens cambas de Santa Cruz se atrevem a expressar em voz alta seus desejos de independência, enquanto os mais velhos pedem só uma maior autonomia e acusam todos os meios de comunicação de demonizá-los e dar ouvido somente a Morales. EFE fjo/rb/rr

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