Santa Cruz aprova autonomia e pressiona Morales

SÃO PAULO - Como era amplamente esperado, a região mais rica da Bolívia, o Departamento de Santa Cruz, aprovou ontem um estatuto de autonomia, que concede mais poderes ao governo regional. A aprovação não significa, porém, mudanças imediatas. Haverá, sim, mais pressão sobre o presidente Evo Morales para que ele aceite um plano de autonomia negociada.

Valor Online |

Segundo pesquisas de boca-de-urna, o sim à autonomia venceu o referendo, obtendo ao menos 85% dos votos. Até o fechamento desta edição não tinham sido divulgados resultados oficiais nem o dado de comparecimento às urnas. O voto não era obrigatório.

O dia foi de tensão ontem na Bolívia. Houve uma série de protestos pelo país e confronto em Santa Cruz entre defensores da autonomia e opositores, estes últimos favoráveis ao presidente Morales. Uma pessoa morreu em Santa Cruz, dentro de casa, aparentemente por consequência do gás lacrimogêneo atirado pela polícia para dispersar os choques de rua.

O estatuto de autonomia aprovado em Santa Cruz transfere uma série de atribuições do governo central para o regional, criando um Estado federado. Entre outras coisas, a região ficaria com uma fatia maior de sua receita fiscal.

O governo boliviano diz que o estatuto é ilegal e ameaça a unidade do país. Autoridades de Santa Cruz alegam que não querem se separar da Bolívia e desejam só mais autonomia administrativa. Há pouca chances de divisão do país, pois os militares bolivianos são contra e os separatistas não obteriam reconhecimento dos principais vizinhos, inclusive do Brasil.

A Bolívia tem forte concentração de poder no governo central. Até pouco tempo atrás, era La Paz que indicava as principais autoridades regionais. Com a ascensão de Morales e sua política econômica de viés socialista, a tensão com Santa Cruz se acirrou, reforçando a reivindicação de autonomia.

Essa é uma revolução pacífica. Uma nova Bolívia nasce da nossa decisão , disse Ruben Costas, governador de Santa Cruz. Outros três departamentos, todos no oeste do país, devem realizar referendos por autonomia em junho.

Com a vitória do sim , o movimento autonomista de Santa Cruz deve convocar, em 90 dias, a eleição de uma Assembléia Legislativa. De resto, pouco muda. Enquanto isso, na prática, a região ganha munição para negociar com o governo central.

Resta saber se Morales aceitará negociar. Até agora ele não deu sinais disso, preferindo hostilizar os opositores e pedir apoio a países aliados, como Venezuela e Equador. O presidente considera o estatuto inconstitucional e pode contestá-lo na Justiça. Dos dois lados, a opção pelo confronto poderia agravar a situação no país, com consequências imprevisíveis.

Santa Cruz é importante para o Brasil. A região produz parte do gás vendido ao Brasil e por lá passa o principal gasoduto. Além disso, há lá brasileiros produzindo soja.

(Valor Econômico, com agências internacionais)

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