Sangue, suor e lágrimas no tratamento de dependentes químicos no Camboja

Jordi Calvet. Phnom Penh, 10 fev (EFE).- Flexões, corridas, trabalhos forçados, surras e humilhações: assim é o tratamento dos dependentes químicos nos centros de reabilitação públicos do Camboja, onde os pacientes são submetidos a um regime penitenciário com uma ferrenha disciplina militar.

EFE |

"Fui obrigada a andar de joelhos, nos castigavam com cabos elétricos", conta Khun Seiha, um jovem de 22 anos que passou duas vezes pelo centro de Chom Chao, em Phnom Penh, a primeira aos 13 anos.

"Fazíamos ginástica de manhã e nos batiam se julgassem que estivéssemos fazendo errado", lembra Chan Nan, outro cambojano que esteve em Chom Chao em três ocasiões.

Ambos eram meninos de rua viciados em metanfetamina e cola de sapateiro quando entraram na instituição após serem detidos pela Polícia em uma das "operações de limpeza" que as autoridades faziam para embelezar as regiões turísticas.

"Aquilo funciona como uma prisão. Em caso de mau comportamento, o paciente é encerrado em uma sala escura", afirma Chan.

A internação que pode durar de meses a anos acaba por determinação da direção, nos casos de fuga ou quando algum familiar suborna os vigilantes.

Em Battambang, a segunda cidade do país, 50 jovens com a cabeça raspada e calças curtas fazem exercícios no pátio de um quartel da Polícia Militar.

"Aqui estamos todos em reabilitação por dependência química. Eu já levo um ano e meio. Acho que poderei sair dentro de um ano", assegura Tony, um dos internos.

"Fazer exercícios é bom para a saúde", disse o jovem evasivamente ao notar a aproximação de um guarda.

Com 53 depoimentos, a Human Rights Watch (HRW) redigiu o relatório "Skin on the cable", que denuncia todo tipo de abusos e maus tratos nos 11 centros de reabilitação abertos no Camboja administrados pelo ministério de Assuntos Sociais, Polícia e o Exército.

As autoridades cambojanas classificaram o documento de "completamente inaceitável" e "prejudicial".

"Identificamos casos de surras, castigos, golpes com bastões elétricos, trabalhos forçados e inclusive violações. Mas parte dos abusos, o que chamam de reabilitação, não é outra coisa que exercício físico e instrução militar", explicou à Agência Efe Joe Amon, diretor da divisão de Saúde e Direitos Humanos da HRW.

Nem todos os pacientes chegam ao centro após detenções, muitos ingressam a pedido de familiares que chegam a pagar à Polícia para retirá-los de casa e interná-los.

"Há famílias que acreditam que estes são centros de tratamento de verdade. Muitas vezes estão desesperadas, não sabem para onde ir, mas na realidade o tipo de tratamento que oferecido são abusos", resume Amon.

HRW lembra que, segundo a Organização Mundial da Saúde, só 1% das pessoas internadas nestes centros se livram da dependência.

"Não é surpreendente. Não recebem um tratamento adequado e normalmente saem pior do que entraram", diz Amon, quem da mesma forma que a Agência contra a Aids das Nações Unidas considera que estas instituições são ilegais e teriam de ser fechadas.

Para Chan e Khun a passagem por Chom Chao não foi totalmente negativa, hoje vivem e trabalham em um centro de amparo para meninos de rua viciados em drogas.

"Quando estás fechado não podes encontrar drogas. Isto funciona.

O problema é a violência da Polícia e a falta de liberdade", diz Khun.

Em 2008, ao todo 2,4 mil dependentes químicos, 20% deles menores de idade, foram internados. EFE jcp/dm

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