Saiba o que está em jogo na decisão sobre os juros

O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) anuncia nesta quarta-feira as novas taxas básicas de juros da economia brasileira. Em meio à crise internacional e a grande volatilidade dos mercados de dólar e de ações, a decisão do BC se tornou especialmente complicada.

BBC Brasil |

Por um lado, a subida do dólar reforça o risco de que a inflação continue subindo e pode levar os gestores da política monetária a subirem os juros. Por outro, a retração da economia mundial - que já está acontecendo - pode derrubar a inflação sem que seja preciso uma subida dos juros e uma alta poderia reduzir de forma exagerada a atividade econômica do país.

O Brasil já tem tradicionalmente uma das taxas nominais e reais de juros mais altas do mundo. Atualmente a taxa básica, a Selic, está em 13,75%.

Entenda a seguir como diferentes fatores influenciam a economia e, por conseqüência, a decisão do BC.

Crescimento

O aumento de consumo tem sido apontado pelo Banco Central como a principal razão do aumento da inflação no país. Segundo o BC, a produção não tem conseguido seguir na mesma velocidade das compras, o que gera aumento de preços.

No entanto, com a atual crise, analistas não sabem como o consumo e o crédito vão se comportar. Ainda há poucos sinais de que as pessoas estão comprando menos ou de que os preços estão caindo.

Alguns economistas argumentam que a crise global vai resolver o problema da inflação. "Um problema enterrou o outro", diz o professor Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia. Defensores dessa tese argumentam que vários países do mundo devem enfrentar uma recessão em 2009 e que o crescimento do Brasil será afetado.

A taxa de crescimento estimada para o ano que vem, dependendo da fonte, varia de 2,5% 4% Para alguns analistas, essa queda poderia ser suficiente para conter a inflação mesmo sem aumento da taxa de juros.

Uma das dificuldades do Banco Central é saber qual será a profundidade da crise no Brasil e seu impacto nos preços.

Por um lado, há o risco de que a crise não controle a inflação como alguns economistas argumentam, o que poderia levá-la para fora da meta do Banco. Apesar de uma recente desaceleração nos últimos meses, ela ainda está acima do centro da meta definida pelo BC. A alta acumulada nos últimos 12 meses até setembro foi de 6,25%.

Por outro lado, há o risco de que um eventual aumento de juros se some aos impactos da crise e derrube o crescimento de maneira mais forte do que o desejado pelo governo.

Dólar

Nos últimas semanas, o dólar saiu de um patamar abaixo dos R$ 1,80 para mais de R$ 2 - com picos de até R$ 2,50. Essa alta pressiona a inflação para cima, pois um terço dos itens que compõem o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) sofre o impacto do câmbio. Esse índice é usado pelo BC como o medidor oficial da inflação e para estabelecer as suas metas inflacionárias.

O dólar valorizado deixa os produtos importados mais caros. Entre os mais afetados pelo câmbio estão o trigo, o petróleo e seus derivados.

Pelas contas da consultoria LCA, cada 10% de aumento no dólar, se permanente, gera um aumento de 1,2 ponto percentual no IPCA ao longo de um ano. O economista-chefe da LCA, Bráulio Borges, diz que o exercício matemático supõe que outros fatores permaneçam inalterados. Segundo ele, se houver, por exemplo, uma queda no preço das commodities, a pressão sobre a inflação pode ser atenuada.

Preço das Commodities

O Brasil é um dos maiores exportadores mundiais de commodities, mas o país também importa alguns desses produtos, como por exemplo, o petróleo.

O produto, que tem peso importante sobre a chamada "inflação importada", vem caindo de preço - chegou a ser negociado a US$ 140 o barril em junho e já caiu para a casa dos US$ 60. Além do petróleo, as commodities agrícolas também vinham sofrendo fortes altas nos últimos anos, com o preço de alguns alimentos batendo recordes no primeiro semestre.

A crise nos mercados está fazendo com que esses preços recuem. Quando as cotações internacionais caem, os preços internos seguem a mesma tendência, amenizando o impacto sobre a inflação e tendo um efeito inverso ao da alta do dólar.

Compulsório

Outro fator que deverá ser considerado na reunião do Copom é a flexibilização do compulsório, dinheiro dos bancos que fica retido pelo BC. Em duas semanas, o Banco Central fez cortes na obrigação dos bancos de manter esses depósitos e colocou à disposição do mercado um montante de US$ 160 bilhões.

O objetivo é aumentar a quantidade de dinheiro à disposição dos bancos para que eles possam emprestar mais.

Na opinião de alguns analistas, aumentar os juros básicos no momento em que o BC amplia a liquidez por meio do compulsório pode parecer contraditório. O compulsório, ao menos em tese, também pode ser um instrumento para controlar ou aumentar a inflação. Quando mais dinheiro dos bancos o BC libera, maior tende a ser a inflação. Quando mais ele retém, menor deve ser o índice.

No entanto, para alguns economistas o efeito do compulsório nas taxas de inflação não são necessariamente tão diretas. Um dos motivos é que os bancos não usam necessariamente todo o dinheiro. Mais da metade do que foi liberado está, na verdade, apenas à disposição e uma outra parte acaba sendo recolhida novamente, na forma de títulos do governo, porque os bancos não estão emprestando.

A avaliação do economista-sênior da BES Investimento, Flávio Serrano, é de que a flexibilização do compulsório tem impacto menor do que se imagina. "Esse dinheiro foi colocado à disposição para setores específicos. Seu efeito sobre a política monetária como um todo é mínimo", diz o economista. Para ele, o grande instrumento para influenciar a inflação continua sendo a taxa básica de juros, a Selic.

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