Saiba mais sobre o conflito na Faixa de Gaza

A Palestina, região que compreende o Estado de Israel, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, é marcada historicamente por conflitos religiosos e disputas territoriais. Os judeus reclamam um território na chamada Terra Santa desde o século I d.C., quando foram expulsos da região pelo exército romano.

Marina Morena Costa, repórter do Último Segundo |


Em 1897, realizou-se o primeiro congresso sionista, que deu início ao movimento de reocupação da Palestina pelos judeus. A emigração começou desde então e se intensificou após a primeira e a segunda guerras mundiais, que levaram milhares de judeus a fugir da Europa em direção ao Oriente Médio.

Três anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, em maio de 1948, o Reino Unido, que havia conquistado a Palestina do Império Otomano, deixou o território para a criação do Estado de Israel. De acordo com a partilha territorial proposta pela Assembleia Geral das Nações Unidas, dois Estados seriam criados na Palestina: um árabe e outro judeu. Como os árabes palestinos, que viviam há séculos na região, não aceitaram a divisão imposta, os conflitos armados começaram. A Liga Árabe mobilizou 30 mil soldados e confrontos intensos se iniciaram nas fronteiras da Palestina.

Israel x Gaza

A atual investida militar de Israel contra a Faixa de Gaza, que já matou mais de 800 palestinos, tem como objetivo principal, segundo o governo israelense, enfraquecer o Hamas, movimento islâmico que domina a Faixa de Gaza e que não reconhece Israel como um Estado ( saiba mais sobre o Hamas ), e retaliar os ataques com foguetes que o grupo islâmico tem feito contra seu território ¿ do lado israelense mais de dez pessoas morreram até o momento, entre civis e militares.

De acordo com Maria Aparecida Aquino, professora de História Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a desproporção com a qual Israel reagiu aos ataques revela uma nova preocupação do Estado. Estamos às vésperas de uma mudança muito significativa nos Estados Unidos, que sempre apoiaram Israel e estiveram presentes nas questões do Oriente Médio. Eventualmente, Barack Obama (presidente eleito dos Estados Unidos e que tomará posse no dia 20 de janeiro) poderá trazer algumas diferenças na política externa norte-americana, e até traçar estratégias de paz, como fez Bill Clinton. Israel tomou esta decisão militar, pensando no cenário internacional, afirma a professora.

Segundo o jornal norte-americano The New York Times, especialistas nas questões do Oriente Médio dizem que Israel programou sua movimentação contra o Hamas para receber o apoio do atual presidente dos Estados Unidos, George W. Bush.

Ainda de acordo com o artigo do jornal , oficiais israelenses não tinham certeza se Obama, apesar de declarações anteriores de simpatia pelo direito de defesa de Israel, daria ao país o mesmo apoio incondicional da gestão Bush.

Localização da Faixa de Gaza

Foguetes, tréguas e bloqueio

Desde setembro de 2005, quando as tropas israelenses se retiraram de Gaza, após 38 anos de ocupação, a região passa por uma sucessão de conflitos e tréguas. A situação ficou ainda mais tensa com a vitória do Hamas, em janeiro de 2006, nas eleições locais.

Israel suspendeu negociações com Gaza e não reconheceu o Hamas como um governo legítimo. Mesmo com o partido tendo sido eleito democraticamente, por voto popular, explica Maria Aparecida. Em setembro de 2007, Israel declarou a Faixa de Gaza entidade hostil.

Em resposta aos contínuos ataques com foguetes, o governo israelense impôs um bloqueio econômico à Faixa de Gaza, em janeiro de 2008.

Cessar-fogo de 2008

Uma trégua entre Israel e Hamas foi acertada com a mediação do Egito, em 19 de junho de 2008 com o prazo de 6 meses de duração. Porém, poucos dias depois, no dia 23, o Hamas continuou a lançar foguetes em direção ao território israelense, reclamando a liberação do trânsito de mercadorias para Gaza.

Os dois lados se queixavam de que o adversário não cumprira todos os termos do acordo. O Hamas pedia o fim do bloqueio para a entrada de alimentos, combustíveis, medicamentos e outros bens; Israel questionava os disparos esporádicos de foguetes e morteiros vindos de Gaza.

A tensão aumentou no dia 4 de novembro, após a eleição de Barack Obama, quando o Exército israelense realizou incursões terrestres e aéreas em Gaza, matando sete militantes do Hamas. Este foi o primeiro confronto armado entre forças israelenses e do Hamas em Gaza desde a entrada em vigor do cessar-fogo temporário.

No dia 19 de dezembro, o braço armado do Hamas, as Brigadas Ezzedine Al-Qassam, anunciaram o fim oficial da trégua em resposta ao prosseguimento do bloqueio israelense de Gaza. Israel lançou a última grande ofensiva contra o Hamas, em 27 de dezembro, a operação chumbo grosso.

Objetivos principais

As duas partes envolvidas no conflito têm objetivos difíceis de serem alcançados, segundo especialistas. O Hamas pretende colocar fim ao bloqueio econômico imposto por Israel e firmar-se como um governo legítimo e reconhecido.

Já Israel quer acabar com os bombardeios do Hamas e enfraquecer o grupo islâmico. O governo israelense nega um cessar-fogo, porém, Israel teria determinado três princípios fundamentais para pôr fim às ofensivas terrestres e aéreas em Gaza: destruição substancial do poderio militar do Hamas, impedimento do grupo de disparar foguetes contra Israel e a construção de muros subterrâneos na fronteira com o Egito, que impeçam o Hamas de construir túneis para transportar armamentos.

A construção de túneis na fronteira com o Egito requer um acordo com o país, que dificilmente será aceito, afirma a professora da USP.

Outro fator que pode ter motivado os ataques israelenses é a proximidade das eleições em Israel. O primeiro-ministro, Ehud Olmert, e a ministra de Assuntos Exteriores, Tzipi Livni, ambos do Partido Trabalhista Kadima, melhoraram seus índices de popularidade com a ofensiva. O bombardeio é apoiado por 95% da população israelense, segundo uma pesquisa publicada pelo jornal Maariv, a poucas semanas das eleições antecipadas, previstas para 10 de fevereiro.

Antes da ofensiva o Partido Trabalhista (de centro-esquerda) estava em queda nas pesquisas e a oposição de direita, que exigia uma resposta mais dura ao Hamas ganhava vantagem. Com a ascensão, o partido de Tzipi Livni deve eleger 16 deputados da futura Knesset (parlamento israelense) contra os 12 atribuídos pelas sondagens anteriores.

AP
Meninos palestinianos feridos aguardam tratamento no hospital Shifa
Meninos palestinianos feridos aguardam tratamento no hospital Shifa


Possíveis desdobramentos do conflito



Na visão da professora Maria Aparecida Aquino, a invasão terrestre do exército israelense em Gaza deve prosseguir ostensivamente até 20 de janeiro, quando Obama assumirá a presidência dos Estados Unidos. Obama já tem em sua agenda uma tomada de decisão deste conflito, uma resolução pela paz na região. Ele assume com este problema profundo para resolver e sua decisão dependerá muito de como estará a situação em Gaza, diz a professora.

A invasão terrestre pode ser considerada uma demonstração de força absoluta de Israel, de acordo com Maria Aparecida. O exército israelense está ocupando Gaza. Muito provavelmente a população terá que responder às duas bandeiras [de Israel e de Gaza] em breve. E o maior problema ainda está por vir: a desocupação. É muito difícil desocupar um território.

(*com informações da EFE, AFP e AE)

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