Saiba mais sobre a visita do presidente do Irã ao Brasil

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, inicia nesta segunda-feira uma visita oficial de apenas um dia ao Brasil. Ahmadinejad será recebido em Brasília pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

BBC Brasil |

Ele viaja acompanhado de uma comitiva de quase 300 pessoas, entre membros de seu governo e empresários.

A vinda do líder iraniano é cercada de polêmica e ocorre menos de duas semanas depois da visita do presidente de Israel, Shimon Peres.

Abaixo, a BBC Brasil responde a algumas perguntas sobre a visita do presidente iraniano.

Quais devem ser os principais temas discutidos entre Lula e Ahmadinejad?

Lula e Ahmadinejad terão um encontro privado na manhã desta segunda-feira. Segundo o Itamaraty, os dois presidentes vão discutir "temas da agenda internacional e das respectivas regiões".

Questões polêmicas, como o programa de enriquecimento de urânio do Irã, devem estar na pauta da reunião. Lula deverá defender o uso de energia para fins pacíficos e reiterar que o Irã tem direitos e obrigações a cumprir.

Em ocasiões anteriores, Lula já disse que todos os países signatários do Tratado de Não-Proliferação Nuclear - caso do Irã e do Brasil - têm o direito de enriquecer urânio para produção de energia para fins civis.

A expectativa é de que o presidente Lula afirme que o governo brasileiro é contrário a sanções contra o Irã antes de serem esgotadas todas as etapas de negociação sobre o programa nuclear iraniano.

Em encontros anteriores com o líder iraniano, o presidente Lula também já disse que é um erro grave negar o Holocausto (como Ahmadinejad já fez mais de uma vez). No entanto, Lula também afirmou que as posições do presidente iraniano são uma questão pessoal e não interferem nas relações dos dois países.

Além do encontro com Lula, Ahmadinejad também será recebido pelos presidentes do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), e por representantes do Grupo de Amizade Parlamentar Brasil - Irã.

Que relações o Brasil mantém com o Irã?

A visita de Ahmadinejad é a primeira de um presidente do Irã ao Brasil e tem o objetivo de estreitar os laços políticos e econômicos entre os dois países. No ano que vem, será a vez de Lula visitar o Irã, em uma viagem prevista para o primeiro semestre.

Ahmadinejad chega a Brasília acompanhado de 150 empresários de setores como agricultura, mineração, energia e indústria de bens de capital.

De acordo com o Itamaraty, na reunião entre os dois presidentes serão avaliadas oportunidades de ampliação e diversificação das relações comerciais e dos investimentos. Lula e Ahmadinejad deverão assinar 23 acordos bilaterais em diversas áreas.

O Brasil exportou US$ 1,13 bilhão para o Irã no ano passado, um salto em relação aos US$ 491,53 milhões exportados em 2002. Em 2008, o saldo da balança comercial foi favorável ao Brasil em US$ 1,11 bilhão. No período, o Brasil importou US$ 14,78 milhões do Irã.

A Petrobras tem um escritório em Teerã e atua em projetos no país. No entanto, na semana passada, às vésperas da visita de Ahmadinejad, o diretor internacional, Jorge Zelada, disse que a empresa poderá deixar o Irã porque as descobertas em poços perfurados no país teriam se mostrado de baixo potencial comercial.

Por que a visita é polêmica?

Mesmo antes da chegada de Ahmadinejad, organizações judaicas, religiosas, de defesa dos direitos humanos, de homossexuais e outras entidades já realizaram protestos contra a vinda do presidente iraniano. A visita também provocou críticas em outros países.

O presidente do Irã vem ao Brasil em um momento em que a comunidade internacional pressiona seu governo a abandonar o programa de enriquecimento de urânio. O Irã é alvo de sanções da ONU devido à recusa em congelar seu programa. Estados Unidos e outros países afirmam temer que o Irã esteja tentando desenvolver armas nucleares secretamente. O governo iraniano, porém, nega essas alegações e afirma que seu programa nuclear é pacífico e tem como objetivo a geração de energia.

Ahmadinejad é conhecido por declarações polêmicas. O líder iraniano já disse que o Holocausto é um "mito" e que Israel deveria ser "varrido do mapa".

Israel acusa o Irã de fornecer financiamento e treinamento a grupos como o Hamas, na Faixa de Gaza, e o Hezbollah, no Líbano, aumentando a instabilidade no Oriente Médio.

O governo do Irã também é criticado por restrições a liberdades individuais e supostas violações de direitos humanos.

Além disso, Ahmadinejad chega ao Brasil após ter sido reeleito, em junho, em uma votação marcada por acusações de fraude. Os protestos que se seguiram à divulgação dos resultados da eleição foram os maiores desde a Revolução Islâmica, em 1979. A repressão violenta aos protestos deixou um saldo de dezenas de mortos e centenas de presos e foi alvo de críticas por parte da comunidade internacional.

Qual é a posição do governo brasileiro?

O Itamaraty afirma que a política externa brasileira se pauta pela tradição de não-intervenção em assuntos internos de outros países. Diz também que o isolamento de regimes como o do Irã não é uma atitude produtiva e que o melhor caminho é o diálogo.

Em entrevistas, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, já afirmou que, se o Brasil quiser ter um papel mais relevante nas grandes discussões internacionais, tem de estar preparado para conversar com todos os regimes.

Há duas semanas, durante a visita a Brasília do presidente de Israel, Shimon Peres, o presidente Lula defendeu a vinda de Ahmadinejad ao dizer que é necessário dialogar com todas as forças no Oriente Médio.

"Você não constrói a paz necessária no Oriente Médio se não conversar com todas as forças políticas e religiosas, que querem paz e que se opõem à paz", disse Lula.

O que dizem os críticos da visita?

Críticos afirmam que o Brasil não deveria dialogar com um regime acusado de autoritário e de ignorar as pressões sobre seu programa nuclear.

Muitos dizem que o Brasil poderia até manter sua posição de não isolar o Irã, mas não deveria receber Ahmadinejad com honras de chefe de Estado.

Para os críticos da visita, esse gesto pode passar a impressão de que o Brasil concorda com as posições polêmicas do líder iraniano, o que traria consequências negativas tanto interna quanto externamente.

Os críticos afirmam ainda que supostos ganhos comerciais resultantes do estreitamento das ligações com regimes como o do Irã seriam pequenos diante do desgaste provocado por esse tipo de aproximação.

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