Em Sadr City, sitiada pelo Exército americano e pelas forças de segurança iraquianas, a ameaça para a população deste bairro pobre de Bagdá vem do céu ou do horizonte.

Perto da linha de front que separa soldados americanos e milicianos xiitas em Sadr City, os raros moradores ainda presentes correm para escapar dos atiradores e evitam se reunir nas ruas para não chamar a atenção dos aviões e helicópteros americanos.

Os combates esporádicos que duram desde domingo se concentram no sudoeste deste imenso subúrbio popular xiita, na periferia norte de Bagdá.

O lugar é praticamente deserto. As amplas avenidas estão na mira dos atiradores de elite americanos, posicionados nos tetos a centenas de metros de distância.

"Os atiradores americanos mataram muita gente aqui. É muito perigoso, quase todos os moradores já foram embora. Nós ficamos porque estamos acostumados à guerra", afirma Mussa, um dos raros habitantes de Sadr City presente nas ruas.

Tiros de armas automáticas seguidos por fortes explosões são ouvidos a poucas centenas de metros. Impossível saber quem atira em quem. Em todo Sadr City, os homens de preto de Moqtada al-Sadr se mantêm discretos. Não há sequer um homem armado nas ruas.

As muitas crateras na estrada, provocadas pelos artefatos dissimulados sob a calçada, são o sinal mais evidente da guerra que se trava em Sadr City. Os combatentes do Exército do Mahdi, a milícia de Sadr, colocaram em todo o bairro um monte de IED, essas bombas caseiras que explodem na passagem dos veículos americanos.

Um pouco mais longe, homens trabalham para retirar os escombros de uma loja devastada.

Em meio aos destroços de vidro, um chinelo aparece numa poça de sangue. Seu proprietário, um idoso que estava tomando chá na frente desta loja de tecidos, foi vítima de um ataque aéreo no fim da manhã.

O projétil - míssil ou foguete - deixou uma grande marca na calçada. "Por que os americanos destroem nossas casas, porque eles matam os nossos em nosso país?", insurge-se uma testemunha do ataque. "Não havia combatentes aqui", afirma.

Dois helicópteros Apache sobrevoam o local a baixa altitude. Neste setor, atingido diversas vezes por bombas americanas nos cinco últimos dias, qualquer grupo de pessoas é considerado suspeito.

No centro de Sadr City, por enquanto poupado pelos combates, alguns carros e microônibus circulam pelas ruas cheias de lixo, apesar do toque de recolher imposto pelo governo iraquiano.

Poucas lojas estão abertas, e os mercados estão praticamente desertos. Os moradores evitam circular ou estacionar nas principais avenidas.

Salam el-Fradji, um dos chefes do movimento de Sadr, e seus principais colaboradores, estão neste momento reunidos numa casa qualquer no centro de Sadr City. O religioso está preocupado com uma "catástrofe humanitária", e denuncia que "as populações civis de Sadr City estão sendo tomadas como reféns".

Este subúrbio exclusivamente xiita de dois a três milhões de habitantes é cercado há quase duas semanas pelo Exército iraquiano.

Teoricamente, os acessos a Sadr City estão bloqueados para todos os veículos. No entanto, os transeuntes podem entrar e sair livremente.

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