Saara abriga grande projeto de estudo do aquecimento global

Wanda Rudich. In Salah (Argélia), 16 dez (EFE).- No meio do deserto do Saara, na região argelina de In Salah, um enorme campo de exploração de gás natural funciona hoje como um grande laboratório para amenizar os efeitos dos gases estufas no planeta a partir de uma sofisticada tecnologia.

EFE |

Trata-se do primeiro projeto de grande escala de captura e armazenamento de CO2 em uma jazida de gás.

Segundo Mohamed Keddam, vice-presidente da In Salah Gas, o resultado deste experimento desenvolvido pelas companhias Sonatrach (Argélia), BP (Reino Unido) e Statoil (Noruega) é equiparável ao que se conseguiria se cerca de 200 mil automóveis que percorrem 30 mil quilômetros a cada ano fossem retirados de circulação.

Embora ainda esteja em fase de verificação e controle, o projeto de 30 anos, que teve início em 2004 após um acordo obtido em 2001, já é um sucesso, disse Keddam a um grupo de jornalistas convidados a visitar a instalação.

Para o vice-presidente da companhia, a tecnologia deveria ser aplicada em outras instalações que liberam dióxido de carbono para a atmosfera. No entanto, ele reconhece que se requerem condições nem sempre existentes, como a presença de uma reserva de gás "totalmente íntegra".

Enquanto a União Européia (UE) analisa os riscos desta tecnologia que a Agência Internacional da Energia (AIE) quer promover, cerca de duas mil pessoas já trabalham nisso a 1.700 quilômetros ao sul de Argel, isoladas e protegidas com severas medidas de segurança na paisagem desértica.

A 170 quilômetros da aldeia mais próxima e com temperaturas que no verão superam os 50 graus centígrados, a equipe trabalha 12 horas seguidas todos os dias, durante quatro semanas, alternando um mês de folga, em um serviço que exige máxima concentração.

A instalação para capturar e injetar o dióxido de carbono a dois mil metros debaixo da terra demandou um investimento de US$ 100 milhões.

Segundo o presidente da In Salah Gas, Mike Mossmann, o projeto demonstra que é "possível e economicamente aceitável" romper a cadeia entre "o uso de combustíveis fósseis e o dióxido de carbono (CO2)".

Ele explicou que a UE exige que o gás natural importado não contenha mais que 0,3% de dióxido de carbono, mas o gás da rica reserva de In Salah contém uma média de 7% de CO2, e essa foi a razão decisiva para desenvolver este projeto.

"A outra opção teria sido liberar para a atmosfera o excedente de CO2 ou não vendê-lo à Europa, mas decidimos capturá-lo e armazená-lo sob a terra", disse Keddam.

Para isso, se utiliza um produto químico que absorve o dióxido de carbono do gás natural, que passa depois por um processo de desidratação e permanece assim para sua exportação, enquanto o CO2 é injetado sob a terra.

De acordo com os cálculos, o projeto permitirá recuperar e armazenar 10 milhões de toneladas de CO2.

No ano passado, a Comissão Européia (CE, órgão executivo da UE) lançou uma iniciativa para "analisar os riscos associados" a cada um dos aspectos da captura, do transporte e do armazenamento de dióxido de carbono, tecnologias que poderiam reduzir em até 90% o CO2 produzido nas centrais geradoras de energia.

Por sua vez, o diretor-executivo da AIE, Nobuo Tanaka, defendeu a CCS e, no Fórum Internacional da Energia realizado em abril em Roma, pediu que se mobilizassem os meios para seu desenvolvimento.

"Na captura e no armazenamento de carbono necessitaríamos construir pelo menos 20 fábricas até 2020, com um custo de US$ 1,5 bilhão cada uma", disse Tanaka na ocasião.

No entanto, para os dirigentes do projeto, o desenvolvimento desta tecnologia enfrenta um problema: entraria em risco com o barril de petróleo a menos de US$ 30, uma perspectiva que não se descarta em tempos de crise e retrocesso da demanda pela commodity.

EFE wr/ab/rr

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