Ruth Cardoso, uma intelectual renomada e engajada

Brasília, 24 jun (EFE).- A antropóloga e ex-primeira-dama Ruth Cardoso, que morreu hoje em São Paulo, foi como o seu marido, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, uma das intelectuais mais brilhantes do Brasil e também uma incansável lutadora social.

EFE |

Dona Ruth, como ela era conhecida pela maioria dos brasileiros, morreu em casa, com o marido ao lado, um dia depois de ter recebido alta no Hospital Sírio-Libanês de São Paulo, onde tinha sido internada no sábado para ser tratada de problemas cardíacos.

Seu falecimento, aos 77 anos, enlutou o PSDB, justo às vésperas de seu 20º aniversário, que seria celebrado amanhã com grande pompa em Brasília.

As festas planejadas pelo partido foram suspensas e o presidente da legenda, Sérgio Guerra, disse que todos os líderes e militantes tucanos se somaram ao luto da família Cardoso.

Ruth Vilaça Correia Leite Cardoso, que nasceu em Araraquara, no interior paulista, em 19 de setembro de 1930, ficou conhecida nos meios acadêmicos do Brasil antes de se casar, em 1953, com aquele que veio a ser o presidente do país entre 1995 e 2003, período no qual incorporou a "faceta social" do Governo de FHC.

Graduada em ciências sociais pela USP, onde depois estudou antropologia, Ruth Cardoso começava a brilhar com luz própria nos círculos acadêmicos quando, em 1964, foi obrigada a partir para o exílio com seu marido, ambos perseguidos pelo regime militar.

O casal viveu três anos em Santiago do Chile, onde ele trabalhou na Comissão Econômica Para a América Latina e o Caribe (Cepal) e ela deu aulas de antropologia na Universidade do Chile e na Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.

Como professora, Dona Ruth também trabalhou no Centro de Estudos Latino-americanos da Universidade de Cambridge, na Inglaterra (1977), e na Casa das Ciências do Homem de Paris, em 1981.

Quando seu marido assumiu a Presidência, em 1995, a antropóloga teve a oportunidade de voltar a trabalhar pelos menos desfavorecidos, o que fez ao criar o Programa Comunidade Solidária, que serviu de inspiração para muitos dos programas sociais implementados hoje no país e adotados pelo Governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Mulher de poucas, mas fortes, palavras, Ruth Cardoso foi uma voz crítica do Governo do marido, que a esquerda hoje no poder acusava de ser neoliberal.

Como primeira-dama, ela não hesitou em se valer de seus conhecimentos em antropologia para se posicionar claramente a favor do aborto. Tampouco escondeu suas preocupações sociais ao dizer que era a favor de os mais pobres recorrerem a saques se isso fosse necessário para que tivessem sua fome aplacada.

Muitas dessas inquietações ficaram registradas em sua prolífica obra, que inclui livros publicados nos EUA e até no Egito.

Autora também de diversos trabalhos sobre a juventude, Ruth Cardoso contribuiu mais de uma vez para a polêmica sobre a legalização das drogas no Brasil.

Em 1996, sendo já primeira-dama, declarou seu apoio à descriminalização do consumo da maconha em um programa dirigido ao público adolescente, com o que deixou em polvorosa os setores mais conservadores do país e criou mais um problema ao Governo de FHC.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que em 2003 sucedeu a Fernando Cardoso no poder, emitiu hoje uma nota, na qual disse: "É difícil acreditar que aquela intelectual determinada que conheci muitas décadas atrás, com convicções firmes, gestos nobres e ao mesmo tempo sensibilidade para o drama da desigualdade social, tenha nos deixado". EFE ed/sc

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