Ruth Cardoso foi precursora do Bolsa Família, diz acadêmico britânico

Para o professor e cientista político Anthony Hall, da London School of Economics (LSE, Escola de Economia de Londres), a contribuição da ex-primeira dama e antropóloga Ruth Cardoso, falecida na terça-feira em São Paulo, ajudou a mudar os rumos da política social no Brasil. Ela foi uma peça fundamental na idéia de unir os vários programas sociais e de transferência de renda dos anos 90 em um único programa, disse Hall em entrevista à BBC Brasil.

BBC Brasil |

O acadêmico explica que vários programas locais de combate à pobreza se espalharam pelo país na década de 90, especialmente no nível municipal, em cidades como Campinas, Belo Horizonte, Blumenau, Vitória e outras localidades.

Ele acredita que essas iniciativas teriam culminado com a criação do Bolsa Escola, em Brasília e, mais tarde, na adoção do Bolsa Família como um programa nacional do governo brasileiro.

Segundo ele, Ruth Cardoso teria sido quem impulsionou a unificação dos programas de transferência de renda e de combate à fome no país e teria sido ela quem persuadiu o então presidente Fernando Henrique a adotar esse sistema unificado em nível nacional.

"Muitas pessoas acreditam que ela foi de fato a primeira pessoa que pensou na idéia do Bolsa Família, apesar de o programa não ter esse nome na época. Mas essa idéia de unificar os programas, criar uma economia mais equilibrada e eficiente, foi exatamente o que Lula fez quando assumiu o governo em 2003", disse.

Para Hall, por essas razões é possível afirmar que Ruth Cardoso foi uma das pessoas mais influentes para a mudança de direção nas políticas sociais do Brasil a partir da década de 90.

Ruth Cardoso era doutora em antropologia pela USP, fez pós-doutorado na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos e foi professora em faculdades americanas e inglesas.

Figura pública
O acadêmico afirmou ainda que a figura pública de Ruth Cardoso como primeira-dama durante o governo de Fernando Henrique é inseparável de sua imagem como acadêmica e intelectual.

"Ela foi uma primeira-dama eficiente justamente porque ela era uma acadêmica muito respeitada e podia falar com autoridade. E quando ela falava, as pessoas ouviam", afirmou o professor.

Já para o professor e ex-diretor do Centro de Estudos Latino Americanos da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, David Lehmann, Ruth Cardoso não era uma mulher de político nos padrões convencionais.

"Como figura pública, ela era muito independente do marido", afirmou Lehmann à BBC Brasil.

De acordo com Anthony Hall, Ruth teria transformado o papel de primeira-dama no Brasil, já que, ao contrário de esposas de presidentes anteriores e, inclusive da mulher do presidente Lula, Marisa, ela teria sido uma figura pública importante e não teria ficado apenas nos bastidores.

"O apelo carismático de Ruth Cardoso entre a classe média e a camada mais pobre da população se deve justamente à sua preocupação pela questão social", disse Hall.

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