Rússia pressiona com mísseis em Kaliningrado e compromete diálogo com Obama

Com sua decisão de instalar mísseis em plena Europa, o presidente russo Dimitri Medvedev tenta obter concessões por parte dos Estados Unidos quanto a seu escudo antimísseis, mas corre o risco de comprometer seu futuro diálogo com o presidente eleito Barak Obama, avaliam os analistas políticos.

AFP |

A União Européia (UE) já expressou nesta sexta-feira forte preocupação com a decisão russa de instalar mísseis Iskander em Kaliningrado - entre Lituânia e Polônia, dois países da UE -, em um comunicado divulgado pelo ministério francês das Relações Exteriores.

"A presidência do Conselho da UE expressa forte preocupação após a declaração do presidente russo Dmitri Medvedev na Assembléia Federal russa, na qual anunciou a instalação de mísseis Iskander na região de Kaliningrado", afirmou o porta-voz adjunto do ministério francês, Frédéric Desagneaux.

O presidente russo anunciou na quarta-feira a instalação de mísseis em Kaliningrado, em resposta à instalação em breve de um escudo antimísseis americano na Polônia e República Tcheca.

Vários países europeus reagiram negativamente ao anúncio. A Otan manifestou preocupação e os Estados Unidos afirmaram que prosseguirão trabalhando na instalação de elementos de seu escudo antimísseis na Europa.

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) também manifestou sua preocupação com a possível manobra de mísseis Iskander em Kaliningrado e sua conformidade com os acordos em matéria de controle de armamentos.

Segundo Medvedev, essa manobra serviria para "neutralizar" o escudo antimísseis americano, ao qual a Rússia sempre se opôs fortemente, que consiste na instalação de 10 interceptores na Polônia e de um radar na República Tcheca.

Exasperada, a Rússia pode aumentar em mais de 500 km o alcance da versão modernizada do Iskander (que chega, originalmente, a até 280 km de distância) e transformar em letra morta o tratado russo-americano de 1987 sobre a proibição de Forças Nucleares Intermediárias (FNI).

Após a suspensão, por iniciativa de Moscou, do Tratado sobre Forças Convencionais na Europa (FCE), o episódio representa mais um duro golpe contra os acordos de desarmamento negociados no final da Guerra Fria.

Além disso, a questão alimentaria o distanciamento entre Ocidente e Rússia, e não mudaria a situação situação militar, segundo especialistas.

"Este projeto de posicionar os Iskander, ao invés dos velhos Tochka, na região de Kaliningrado, remonta a 2000, e só foi adiado por falta de dinheiro", explicou Joseph Henrotin, da Rede de Estudos Estratégicos (RMES) belga.

Até o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, cujo país está diretamente envolvido, viu as declarações de Medvedev mais como "um ato político que militar".

De todo modo, os analistas se mostram divididos sobre a reação da futura administração americana ao tom intransigente de Medvedev.

Para François Heisbourg, conselheiro especial da Fundação para a Pesquisa sobre Segurança (FRS), com sede em Paris, "a manobra de intimidação russa corre o risco de se voltar contra os próprios russos".

"Se eles esperam que os Estados Unidos desistam de instalar seu escudo, estão equivocados", afirma o especialista.

E, embora os democratas não tenham o mesmo entusiasmo dos republicanos do governo de George W. Bush em relação ao projeto do escudo antimísseis, Obama é "ultra-sensível a tudo o que pode fazê-lo parecer um tipo fácil de dominar", já que sua falta de experiência internacional foi um de seus pontos fracos explorados à exaustão por seus adversários durante a campanha eleitoral, lembrou Heisbourg.

"Ele não vai querer começar seu mandato dando a impressão de que se deixa pressionar", calcula.

Para Andrew Cuchins, diretor para Rússia e Eurásia do Centro para Estudos Internacionais e Estratégicos de Washington, mesmo que o Kremlin cometa um novo erro de "relações públicas", isso não deve impedir que a nova administração americana modifique o foco do diálogo com Moscou.

"Uma diplomacia que não funciona com a Rússia não é viável", estimou, considerando que, se os Estados Unidos não levarem em consideração as preocupações de segurança russas, correm o risco de ver bloqueadas suas aspirações de avançar em questões de controle de armas e proliferação a nível mundial.

pm/ap

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