Rússia intervém na Geórgia e impõe novas regras ao Ocidente

Ignacio Ortega e Misha Vignanski. Moscou/Tbilisi, 20 dez (EFE).- O conflito na Geórgia, a primeira intervenção militar russa no exterior desde a queda da União Soviética, em 1991, marcou um ponto à parte nas relações entre Moscou e Ocidente.

EFE |

O Kremlin advertiu no início do ano que o reconhecimento da independência da província sérvia do Kosovo abriria a "caixa de Pandora" do separatismo na Europa, e previu um esfriamento das relações.

Em questão de meses, a Rússia restabeleceu os contatos comerciais com as regiões separatistas georgianas da Abkházia e da Ossétia do Sul, pressionou a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) a não aceitar a entrada da Geórgia e mobilizou suas tropas no Cáucaso.

No final de julho, houve os primeiros confrontos na linha de separação entre a Ossétia do Sul e o resto do território georgiano administrado por Tbilisi, onde estavam várias centenas de soldados russos.

Na noite de 7 para 8 agosto, começaram formalmente as hostilidades e, em uma ofensiva relâmpago, as tropas georgianas tomaram o controle de quase toda a Ossétia do Sul, incluindo a capital, Tskhinvali.

Várias colunas de blindados russos do Exército do Cáucaso Norte, à espreita havia várias semanas, levaram apenas algumas horas para atravessar a fronteira através de um túnel em defesa de seus concidadãos (a maioria dos ossetas tem passaporte russo).

A operação de "imposição da paz", como definiu o presidente russo, Dmitri Medvedev, gerou uma guerra aberta nos arredores de Tskhinvali, que ficou praticamente em ruínas após três dias de violentos combates.

As tropas russas, muito mais numerosas e mais bem equipadas, começaram a bombardear as posições das unidades georgianas, que bateram em retirada e anunciaram o fim das hostilidades em 10 de agosto.

Então, a Rússia aproveitou a retirada inimiga para invadir o território georgiano vizinho à Ossétia do Sul e Abkházia, e bombardear as infra-estruturas civis e militares georgianas do norte e oeste do país.

Moscou fez pouco caso das críticas de "uso desproporcional" da força e acusou o Ocidente, em particular os Estados Unidos, de encorajar e armar o presidente georgiano, Mikhail Saakashvili.

A intervenção da Presidência da União Européia (UE) - nas mãos da França - permitiu frear o conflito em 12 de agosto, com a assinatura de um acordo de cessar-fogo e retirada de tropas assinado por Medvedev e pelo chefe de Estado francês, Nicolas Sarkozy, no Kremlin.

A partir daquele momento, a Rússia se sentiu com razão para reconhecer a independência da Ossétia do Sul e da Abkházia, estabelecer relações diplomáticas com essas regiões e assinar acordos de colaboração em caso de agressão externa, semelhantes aos que a União Soviética assinava com os países-membros do Pacto de Varsóvia.

A Rússia retirou suas unidades militares da Geórgia em 10 de outubro, mas, no dia seguinte, começou a mobilizar tropas regulares na Abkházia e na Ossétia do Sul, que poderiam se tornar "protetorados" militares de Moscou.

Nas semanas seguintes, Moscou utilizou o argumento da agressão militar georgiana contra a Ossétia do Sul para criticar a política de segurança americana, se opor à ampliação da Otan a seu "quintal" e declarar "morto" o euroatlantismo.

Como alternativa, Medvedev propôs a assinatura de um novo acordo de segurança européia que colocasse fim à política de blocos, iniciativa que teve apoio de Sarkozy e de outros dirigentes europeus.

O desafio russo ao Ocidente em matéria de segurança continuou, já que, em seu primeiro discurso sobre o estado da nação, o Medvedev anunciou o posicionamento de mísseis táticos Iskander em Kaliningrado.

Esta era a resposta russa aos planos dos Estados Unidos de posicionar elementos de seu escudo antimísseis na Polônia (mísseis interceptores) e na República Tcheca (estação de radar), que Moscou considera uma "ameaça direta" para sua segurança.

Medvedev fez esse anúncio em 5 de novembro, um dia depois das eleições nas quais Barack Obama saiu consagrado como novo presidente dos Estados Unidos.

Além disso, o Kremlin devolveu aos EUA a moeda por sua interferência no Cáucaso, com as primeiras manobras navais entre Rússia e Venezuela no Caribe, tradicional zona de influência americana.

Em setembro, a União Européia suspendeu as conversas para a assinatura de um novo acordo UE-Rússia, mas, no início de novembro, suspenderam o "castigo", apesar da aberta oposição de alguns membros do bloco. EFE io/an

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