Rússia congela cooperação militar com a Otan, diz a Noruega

A Rússia decidiu congelar até nova ordem sua cooperação militar com a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e os países aliados, anunciou nesta quarta-feira o ministério norueguês da Defesa, com base em contatos diplomáticos russo-noruegueses.

Redação com agências internacionais |

O embaixador russo perante a Otan, Dmitri Rogózin, pediu, nesta quarta-feira, à comunidade internacional que modere o tom de suas declarações e críticas contra Moscou e denunciou o trabalho de "propaganda" que a imprensa ocidental realiza contra seu país.

Rogózin criticou em entrevista coletiva alguns comentários dos países-membros da Otan, que ontem decidiram endurecer sua postura frente à Rússia e combinar que as relações entre as duas partes não podem continuar como até agora, após a atuação de Moscou no conflito da Geórgia.

O diplomata fez um apelo para manter o "sangue frio" e "deter a demagogia" para iniciar uma "discussão séria" sobre os passos seguintes a serem dados, pois "o primeiro é a paz no Cáucaso e na Europa".

Além disso, lamentou que a Rússia saia de forma negativa nas manchetes da imprensa européia e americana, quando, na sua opinião, o presidente georgiano, Mikhail Saakashvili, é o responsável pela situação, um "criminoso de guerra que deveria ser julgado".

"Estamos escutando tantas coisas nos últimos dias que vamos lembrar como os meios de comunicação se transformam em métodos de propaganda", declarou.

Em referência à recusa da Rússia de apoiar um projeto de resolução perante o Conselho de Segurança da ONU para sua retirada total da Geórgia, Rogózin reprovou as "imprecisões e contradições" do documento e que só tenham sido recolhidos dois dos seis pontos do plano estipulado com o presidente francês, Nicolas Sarkozy.

"Qualquer interpretação do plano é inadmissível", afirmou, e defendeu o "cumprimento total" do combinado.

Durante a entrevista coletiva, Rogózin apresentou um vídeo sobre o suposto genocídio realizado pelas tropas georgianas na região separatista da Ossétia do Sul, gravado, segundo ele, durante os primeiros dias do conflito.

"Nós não escondemos nada, apresentamos esta informação e podemos prová-la", declarou.

Mudanças na Otan

A Otan está atravessando sua pior crise com a Rússia desde o fim da Guerra Fria, por causa do conflito com a Geórgia, e vai ter que rever sua estratégia, segundo os analistas.

Nos últimos 18 meses, a Otan vem assistindo a uma degradação considerável de suas relações com Moscou: escudo antimísseis americanos, Kosovo, promessa de adesão feita à Geórgia e à Ucrânia.

No entanto, segundo o analista Nick Grono, do International Crisis Group, "fomos muito longe" com a intervenção russa na Geórgia e o não cumprimento do acordo de cessar-fogo por Moscou.

A Otan anunciou terça-feira a suspensão das reuniões do Conselho Otan-Rússia. Apesar deste fórum criado em 2002 constituir uma "vitrine" e não ter permitido "um diálogo substancial" entre as duas partes era, segundo este analista, um testemunho da vontade de cooperação, e sua suspensão reflete a "extrema desconfiança" que prevalece atualmente entre as duas partes.

"Desde o fim da URSS, esta é a primeira vez que a Rússia e os Estados Unidos não conseguem se falar sobre um problema muito, muito grave", reconheceu terça-feira na Otan o ministro luxemburguês das Relações Exteriores, Jean Asselborn.

Quanto tempo esta crise demorará?

Para Tanguy Struye, do Centro de estudos de crises e conflitos internacionais da Universidade belga de Louvain, "as relações podem ser retomadas dentro de alguns meses se os russos se retirarem da Geórgia nos próximos dias".

O chefe da diplomacia alemã, Frank-Walter Steinmeier, propôs terça-feira que o Conselho Otan-Rússia se reúna assim que a Rússia se retirar e que se torne um verdadeiro órgão de gestão de crise em vez de um "fórum para dias felizes", como vinha sendo até agora.

Para Daniel Korski, do Conselho Europeu sobre Relações Exteriores de Londres, a crise terá permitido forjar o consenso que estava faltando na Otan nos últimos tempos.

"Desde o fim da Guerra Fria a Otan vinha sofrendo da falta de um inimigo claro (...) Agora temos uma crise ótima para recriar a unidade e encontrar novamente um consenso", disse.

Isso não quer dizer que a Otan vá decidir a curto prazo integrar a Geórgia ou a Ucrânia, pois este assunto continua sendo muito polêmico, mas a Otan deve se esforçar para intensificar sua cooperação com a Geórgia, o que é um resultado já contraproducente para Moscou", segundo ele.

Outra conseqüência, a Otan vai ter que refletir sobre as garantias de segurança que dá a seus membros, explicou Tomas Valasek, do Centro para as Reformas Européias de Londres.

O Tratado do Atlântico Norte determina que, em caso de ataque a um país membro, os outros ajudem e, se for necessário, mediante o emprego da força armada.

"O debate já começou para saber quais são os países pelos quais estamos dispostos a combater e a morrer", explicou Tomas Valasek.

"A Guerra fria vai começar de novo por isto? Todo mundo disse que não, iniciando por russos e americanos, porque não convém nem a Washington nem a Moscou.

Segundo Tanguy Struye, os dois países "começaram a mover seus peões", no tabuleiro mundial, no Cáucaso, mas também na África ou na Ásia, e, grande jogo de influências em torno de alguns Estados chaves que se parece muito ao da época da Guerra Fria. A Geórgia é, no plano político, econômico e energético, o exemplo perfeito.

(*Com informações das agências EFE e AFP)

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