Ruralistas prometem novos protestos na Argentina

Os líderes das quatro entidades do setor rural na Argentina anunciaram que vão retomar as manifestações contra o governo neste domingo. Os protestos se estenderão até a meia-noite de quarta-feira.

BBC Brasil |

Em um comunicado, eles convocaram os fazendeiros a não comercializar grãos, nesse período, deixando passar, nas estradas, apenas os carros particulares e os carregamentos de leite e alimentos perecíveis.

"Desta vez, o protesto é em repúdio à repressão contra o setor", diz o texto, lido por um porta-voz diante de câmeras de televisão.

O conflito entre o setor rural e o governo da presidente Cristina Kirchner, que assumiu o poder há pouco mais de seis meses, completou 95 dias neste sábado. O desentendimento começou com o anúncio feito pelo governo argentino no começo do ano de que as taxas de exportação seriam aumentadas.

Sábado tenso
A promessa de novos protestos ocorreu no fim de um dia tenso, marcado por enfrentamentos entre policias, na província de Entre Ríos, a prisão de alguns fazendeiros e panelaços em diferentes pontos de Buenos Aires, a capital do país.

Na tarde de sábado, uma multidão, com maioria de classe média, caminhou batendo panelas até a Praça de Maio em frente à Casa Rosada (Presidência da República) gritando: "Argentina, Argentina".

À noite, na mesma praça, outros grupos ergueram faixas e cartazes em defesa do governo de Cristina. Pouco depois, ali estiveram quatro integrantes do governo central - entre eles, a ministra da Defesa, Nilda Garré, e o ministro do Planejamento, Julio de Vido.

Todos eles declararam apoio à Cristina e criticando os que "pretendem desestabilizar" sua gestão. A maior surpresa foi a chegada do ex-presidente Nestor Kirchner, marido de Cristina, ao local.

Ele chegou à praça tarde da noite, evitou entrevistas e se uniu aos que realizavam uma manifestação em apoio ao governo de sua esposa. A presidente não fez declarações neste sábado.

Prisões
O sábado havia começado com os policiais tentando liberar o trânsito numa estrada federal, a rodovia 14, em Entre Ríos.

Diante da resistência dos fazendeiros, quase vinte deles foram presos, entre eles Alfredo de Angelis, presidente da Federação Agrária de Gualeguaychú e hoje uma das principais vozes dos que afirmam que não desistirão do protesto enquanto o governo não revisar o aumento de impostos para exportações anunciado em março.

O ajuste gerou o conflito. Também na noite deste sábado, o chefe de Gabinete (equivalente a chefe da Casa Civil), Alberto Fernández, ao lado do ministro da Justiça, Aníbal Fernández, declarou que o aumento impositivo é "constitucional" e voltou a sinalizar que o governo não pretende modificar a medida.

"O governo quer preservar o direito de alimentar os argentinos", afirmou.

O governo argumenta que com o ajuste está dando prioridade à mesa dos argentinos. Fernández disse que os ruralistas não querem o diálogo.

Logo depois, quando divulgaram que retomariam o protesto neste domingo, os líderes ruralistas contestaram o ministro.

"Suspendemos o protesto na semana passada, e ninguém nos chamou para o diálogo. O defensor do povo, Eduardo Mondino, que tem um cargo constitucional, convocou as partes ao diálogo. Nós fomos, mas o governo não compareceu", disse Mario Llambias, presidente da Confederações Rurais Argentinas (CRA).

Os líderes do setor rural afirmaram ter, nesta nova etapa de protesto, o apoio de setores dos caminhoneiros que bloqueiam o trânsito, em diferentes pontos do país, desde a última terça-feira.

Os caminhoneiros afirmam que o protesto é em defesa do entendimento entre governo e ruralistas para que eles possam voltar a transportar grãos.

O conflito tem aumentado a preocupação com o desabastecimento no país e ainda a pressão sobre problemas que já existiam, como a inflação e a escassez de combustíveis.

Além disso, diferentes analistas afirmam que a dificuldade de entendimento pode acabar "esfriando" a economia argentina que vinha registrando taxas recordes de expansão.

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