Ruanda acusa França de participação no genocídio de 1994

O governo de Ruanda acusou o da França de ter desempenhado um papel ativo no genocídio de 1994, em que cerca de 800 mil pessoas morreram. Uma investigação de dois anos ordenada pelas autoridades em Kigali concluiu que a França ajudou a planegar o genocídio, e acusou soldados franceses de envolvimento direto na matança.

BBC Brasil |

O relatório traz os nomes de mais de 30 altas autoridades francesas, inclusive a do presidente François Mitterand, morto em 1996, e dois ex-primeiros-ministros, Dominique de Villepin e Edouard Balladur.

Na lista também consta o nome do então ministro do Exterior, Alain Juppe, que ainda é uma figura de destaque no partido do presidente Nicolas Sarkozy.

A França negou anteriormente qualquer responsabilidade no genocídio de Ruanda. O Ministério do Exterior da França disse que não dará mais nenhuma declaração sobre o assunto até que o relatório seja lido.

Papel polêmico
O papel da França em Ruanda durante o genocídio sempre foi controvertido, de acordo com o analista da BBC, James Read.

O então presidente Mitterand tinha laços estreitos com o regime dominado por membros da etnia hutu, que orquestrou o massacre.

No centro dessas relações estava o desejo de Paris de manter sua influência pós-colonial nas antigas colônias francesas na África.

Francês era a língua oficial de Ruanda antes do genocídio. Mas os rebeldes majoritariamente da etnia tutsi, liderados por Paul Kagame - hoje presidente do país - tendiam a falar inglês, após longo exílio em Uganda.

A determinação de garantir que Ruanda não havia saído da família francófona foi tal que assistência militar continuou a fluir mesmo quando surgiram evidências de que um genocídio estava em preparação.

Na fase final do massacre, quando o regime hutu se desagregou antes do avanço do exército rebelde de Kagame, a França enviou tropas para organizar uma zona de segurança no oeste de Ruanda, a fim de parar a matança.

Europeus foram retirados do país para sua segurança, mas até tutsis que trabalhavam na embaixada francesa foram deixados para trás.

A intervenção ajudou alguns ruandeses a escapar. Destacados membros do governo hutu acabaram em segurança e milicianos envolvidos no genocídio cruzaram a fronteira para o que é hoje a República Democrática do Congo, causando mais de dez anos de matança neste país.

A França sempre negou qualquer responsabilidade pelo genocídio, embora tenha admitido que cometeu erros políticos.

As relações entre Ruanda e a França nunca foram as mesmas.

No ano passado, Ruanda rompeu relações diplomáticas com a França depois que um juiz francês implicou o presidente Kagame e outras altas autoridades ruandesas na morte do ex-mandatário, Juvenal Habyarimana - um acontecimento amplamente visto como um fator para a ocorrência do genocídio.

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