Risco à saúde de corpos em decomposição é exagerado, dizem especialistas

A crença de que cadáveres de vítimas de desastres naturais podem espalhar doenças é exagerada, segundo especialistas em saúde pública entrevistados pela BBC. Uma pesquisa recente, realizada pelo sanitarista Oliver Morgan, da Escola de Higiene e Medicina Tropical da Universidade de Londres, mostra que cadáveres encontrados após desastres naturais não são uma ameaça à saúde pública.

BBC Brasil |

"No momento de sua morte, essas pessoas deveriam estar, em sua maioria, sadias", explicou o professor de saúde pública e ajuda humanitária Egbert Sondorp, da mesma escola. "O que é preciso é um cuidado ao manusear estes corpos, tomar precauções. Mas eles não representam um risco."
Nicholas Young, diretor-executivo da Cruz Vermelha Britânica e membro do Disasters Emergency Committee, concorda: "Há um mito de que os corpos têm que ser enterrados rapidamente, o que frequentemente leva a eles serem colocados em valas comuns sem nenhum tipo de identificação".

"Isso torna impossível o luto pelos familiares. E impossível saber quantas pessoas morreram. É uma pena, porque o risco é absolutamente mínimo, a menos que já existam doenças na população", afirmou. "Ou seja, isso é um erro e um desperdício de recursos."
Manual
No ano passado, o braço panamericano da Organização Mundial de Saúde (OMS) desenvolveu um manual destinado a pessoas que atuam nos serviços de resgate de corpos após catástrofes naturais, e que destaca que "são os sobreviventes que tendem a ser fontes de infecções".

O documento foi elaborado depois que grandes desastres como o tsunami na Ásia, em 2004, e o furacão Katrina nos Estados Unidos, em 2005, fizeram a entidade ver que faltavam informações sobre como os profissionais e os voluntários deveriam agir.

Segundo o documento, doenças como tuberculose, hepatite B e C e diarreia provocada por bactérias podem se manter ativas em um corpo durante pelo menos dois dias, enquanto o vírus HIV, causador da Aids, sobrevive por pelo menos seis dias.

Por isso, o guia ensina como realizar o resgate de um corpo, como identificá-lo, mantê-lo e finalmente enterrá-lo, ao mesmo tempo em que alerta como se deve ajudar os familiares a lidarem com aquela morte.

Uma das recomendações é realizar um enterro temporário, caso necessário.

O manual diz também que não se deve utilizar substâncias químicas para tentar "desinfetar" os corpos, pois elas não têm efeito e dificultam ainda mais a identificação.

Razões
Segundo o professor Sondorp, há várias razões para que as autoridades prefiram enterrar os cadáveres rapidamente.

Uma delas é o cheiro. "Um corpo em decomposição cheira mal, e é psicologicamente desagradável ter cadáveres nessas condições à sua volta. Além disso, você não quer que esses corpos sejam comidos por cães ou por vermes", explicou o especialista.

Outra razão é a tradição. Em religiões como o islamismo e o judaísmo, os mortos são enterrados em 24 horas.

Por fim, a ausência de organizações governamentais ou não governamentais da área de saúde pública no momento da catástrofe, como foi o caso do Haiti, na semana passada, colabora para que se mantenha a recomendação antiga de se enterrar os corpos rapidamente.

Até agora, até 70 mil corpos foram enterrados em valas comuns no Haiti, após o terremoto que atingiu o país na última terça-feira.

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