Revolução Islâmica completa 30 anos em um Irã de futuro incerto

Javier Martín. Teerã, 31 jan (EFE).- Sob a sombra de seu passado e apreensivo por seu incerto futuro, o Irã inicia hoje os festejos do 30º aniversário da Revolução Islâmica, que derrubou a monarquia pró-ocidental do último Xá de Pérsia, Reza Pahlevi, e sacudiu a ordem do tabuleiro mundial.

EFE |

O desajuste entre o calendário solar do Ocidente e o lunar que marca o almanaque persa, faz com que, neste ano, as comemorações comecem neste sábado, dia no qual se lembra o retorno do aiatolá Khomeini do exílio, e terminem em 10 de fevereiro, data na qual oficialmente a revolução saiu vitoriosa.

O aiatolá retornou a Teerã no dia 12 do mês Bahman do calendário persa -que em 1979 coincidiu com 1º de fevereiro- recebido por multidões após 15 anos de oposição à monarquia do exílio, primeiro em Bagdá e depois em Paris.

Sua volta, precedida por meses de distúrbios, sangue e pranto, revitalizou os amotinados, que, dez dias depois, proclamariam vitória.

Como acontece em todos os anos, escolas, meios de transporte e repartições públicas tocaram seus sinos e buzinas às 09h33 locais (14h33 de Brasília), horário em que pousou o avião da Airfrance no qual retornava o aiatolá, há 30 anos.

Além disso, milhares de pessoas, encabeçadas pelo atual chefe supremo da Revolução iraniana, aiatolá Ali Khamenei, e pelo presidente da República, Mahmoud Ahmadinejad, concentraram-se pela manhã no mausoléu Ruhollah Khomeini, no sul de Teerã, para lhe prestar tributo.

Três décadas depois, a República Islâmica imposta pelo aiatolá enfrenta uma etapa crucial, dividida entre aqueles que a viveram, apoiaram e sofreram o golpe, e aqueles que cresceram em seu seio, mas só conhecem seu significado pelos relatos de seus pais e avôs.

Jovens estes últimos, com menos de 35 anos, que formam quase 50% da população atual do Irã e têm o deposto Xá de Pérsia, Mohamad Reza Pahlevi, sobretudo, como um personagem distante do passado que pouco tem a ver com seus problemas atuais.

"Sabemos o que significou a revolução e que tipo de gente era o Xá, mas agora existem outros problemas. Devemos olhar para o futuro, precisamos de mudança", diz à Agência Efe uma jovem blogueiro que trabalha em um cybercafé da praça de Tajrish, no norte de Teerã, e se identifica apenas como Masoumeh.

Para muitos iranianos, esse futuro passa por uma mudança na relação com Ocidente, que após a fuga de seu aliado Pahlevi a ascensão ao poder dos clérigos ultraconservadores, decidiu isolar e combater o novo regime.

"Talvez possa ser mais possível agora que faz dez anos da vitória dos "aberturistas" do (ex-presidente, Mohamad) Khatami", diz à Efe um diplomata europeu que prefere não ser identificado.

"Antes havia uma disputa não declarada entre os reformistas e os conservadores para dirigir a mudança. Agora são estes últimos os que decidem", acrescenta.

Em um país com um sistema tão fechado, no qual a tomada de decisões é complexa, fazer apostas sobre o futuro é um exercício de risco.

Em princípio, o espectro político se divide entre reformistas e conservadores, todos eles sob o líder supremo, cujo poder de decisão é supremo.

Os conservadores oscilam entre aqueles que apostam na linha mais dura, pelo imobilismo e pela continuidade da política que regeu o país nos últimos 30 anos, e aqueles outros que apóiam uma mudança, mas sem solapar os princípios fundamentais da República Islâmica.

Ambas as facções conservadoras enfrentam, com distintas posições, o desafio lançado pelo novo presidente americano, Barack Obama, que declarou sua intenção de estabelecer uma nova relação com o Irã, país com o qual os EUA romperam relações diplomáticas em 1980, após partidários da revolução invadirem sua embaixada em Teerã, mantendo 52 reféns por 444 dias.

Alguns clérigos considerados conservadores, mas relativamente moderados, como o ex-presidente Hashemi Rafsanjani, respaldam a aproximação desde que "se respeitem os direitos da nação iraniana" -em relação ao programa nuclear, que os EUA desconfiam que tenha fins militares.

Outros, porém, como o conservador Ahmad Jannati, afirmam que se trata de um erro.

Junto a eles, coexistem os setores que rodeiam o presidente laico, mas ultraconservador, Mahmoud Ahmadinejad, cujo gabinete exigiu dos EUA que a mudança seja "real e não uma mera mudança de discurso".

Quem faz qualquer aposta sobre o futuro do Irã se aventura, no entanto, a tecer previsões complicadas, em um ano eleitoral que muitos apontam como decisivo para um país ameaçado também pela crise econômica mundial.

A poucos quatro meses das eleições presidenciais, ainda não existe uma lista de candidatos e só se sabe, por um colaborador próximo, que o presidente Ahmadinejad, criticado internamente por sua gestão econômica, buscará a reeleição. EFE jm/jp

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