Antonio Broto. Pequim, 14 jul (EFE).- Enquanto a cidade de Urumqi tenta se recuperar dos distúrbios de 5 de julho, aumenta a tensão entre a China e o mundo muçulmano, tradicional aliado de Pequim, mas onde alguns grupos radicais já saíram em defesa de seus irmãos uigures.

A amizade entre a China e o Islã - nascida nos tempos da descolonização e do movimento dos não-alinhados - registra agora, devido aos enfrentamentos entre chineses han e muçulmanos uigures, os primeiros sinais de afastamento, perante os quais Pequim reagiu com alarme.

É por isso que o Governo chinês pediu hoje à comunidade muçulmana mundial que compreenda as medidas tomadas pelas autoridades nos distúrbios em Urumqi e "não entenda os distúrbios como um conflito de religiões".

"Se os países muçulmanos e seus fiéis tiverem uma ideia clara dos incidentes, compreenderão as medidas que foram tomadas", disse hoje o porta-voz do Ministério de Assuntos Exteriores chinês, Qin Gang, em entrevista coletiva.

A resposta de Qin ocorre depois de algumas chamadas de radicais islâmicos à "guerra santa" contra a China em países como Indonésia, Irã ou Turquia, dias depois dos violentos confrontos que se saldaram com 184 mortos e mais de 1,6 mil feridos na capital de Xinjiang.

Qin ressaltou que "a China e os países muçulmanos por longo tempo se respeitaram e ajudaram", e expressou o desejo de que a cooperação entre ambos continue sem que haja "interferências nos assuntos internos".

A China e os países muçulmanos mantiveram durante décadas uma boa relação, que ficou claro, por exemplo, nas condenações de Pequim à invasão americana do Iraque, em 2003.

O regime comunista também dá à Autoridade Nacional Palestina (ANP) praticamente o status de Estado independente, enquanto só iniciou laços diplomáticos com Israel em 1992.

Além disso, é um dos principais compradores de petróleo em nações majoritariamente muçulmanas como Irã, Iraque, Nigéria e Sudão, países nos quais tem investimentos milionários e explora jazidas de petróleo.

Mas a forte relação entre esses países e a China, onde há mais de 20 milhões de seguidores do Islã, não evitou que alguns setores radicais no exterior tenham interpretado a violência étnica em Urumqi como uma "repressão" do regime comunista aos muçulmanos.

Isso fez com que no domingo, por exemplo, clérigos iranianos pedissem ao mundo muçulmano que se unisse para condenar a China pela "horrível" supressão dos direitos dos uigures, ou que fiéis indonésios convocassem a guerra santa contra os chineses, em um protesto em Jacarta.

As queixas de setores radicais muçulmanos ameaçam atrair a atenção da Al Qaeda, rede terrorista internacional que nunca teve a China como mira, apesar das acusações de Pequim de que o separatismo uigur tem vínculos com a organização de Osama bin Laden.

Os temores aumentaram com a publicação hoje, no jornal "South China Morning Post", de um relatório de inteligência britânico afirmando que um braço da Al Qaeda no Magrebe ameaçou empresas e projetos chineses na Argélia e em outros países da área.

O porta-voz de Exteriores chinês respondeu a estas supostas ameaças indicando que Pequim está em alerta e "aumentará os esforços com outros países a fim de tomar as medidas necessárias para garantir a segurança de cidadãos e instituições chinesas no exterior".

Centenas de milhares de chineses trabalham no norte da África e no Oriente Médio, incluindo 50 mil na Argélia, e algumas vezes foram alvo de sequestros e ataques em países como Iraque e Paquistão, embora os investimentos chineses não fossem considerados objetivo prioritário do islamismo radical.

Apesar de o mundo muçulmano nunca ter reagido de forma considerável contra a China até agora, antes dos distúrbios de 5 de julho organizações pró-direitos humanos já acusavam Pequim de limitar, quando não reprimir, a prática do Islã no país.

ONGs como a Anistia Internacional lamentam o fato de que a China obrigue os clérigos muçulmanos a se sujeitar ao Partido Comunista da China, ou não permita publicações do Corão que não tenham autorização das autoridades centrais.

A proibição da entrada nas mesquitas de menores de idade é outra das queixas frequentes dos muçulmanos na China, cujo Governo considera que qualquer religião deve ser estritamente limitada, pelo bem da estabilidade nacional.

A etnia muçulmana mais numerosa na China são os hui, espalhados por todo o país, seguida por uigures, cazaques, quirguizes, tártaros, uzbeques, dongxiang e salar, assentados principalmente no noroeste do país, em áreas da antiga Rota da Seda. EFE abc/an

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