Revista árabe quebra tabu ao falar abertamente sobre o corpo

Katy Seleme. Beirute, 3 mar (EFE).- Foi lançada no Líbano a primeira revista árabe que fala do corpo claramente, a Yasad, uma publicação que ousa tratar abertamente de um assunto que é tabu nos países da região e que já está à venda com uma periodicidade quadrimestral.

EFE |

A fundadora e redatora-chefe da revista, Yumana Haddad, explicou à Agência Efe que um dos principais motivos que a levaram a lançar a "Yasad" foi sua paixão pelo corpo, "tema essencial na escritura poética" e em sua busca intelectual.

O primeiro número da publicação, que significa "corpo", aposta em revelar tudo, mas sem cair no clichê. Um de seus artigos, por exemplo, é sobre a indústria pornográfica no Líbano.

"O fato de que não houvesse uma revista que falasse do corpo era grave. A língua árabe é livre e bela, e o fato de falar do corpo ter sido tabu nos últimos séculos é um insulto a ela", afirmou Haddad.

A "Yasad", de apresentação luxuosa e com mais de 160 páginas, mistura ciência, conhecimento e cultura para falar do corpo a partir de diversos âmbitos, "o social, cultural, estético, motriz, estático, sexual e literário", explicou sua fundadora.

"É preciso colocar fim à esquizofrenia e à hipocrisia. Não se pode continuar escondendo o mais importante do ser humano", afirmou a redatora-chefe, que destaca que a revista não persegue "nenhum fim ideológico".

"Falar do corpo, para mim, é uma paixão", acrescentou.

Outros dos temas que a publicação aborda em seu primeiro número são o fetichismo da pele, o canibalismo, o homossexualismo no Líbano, o hedonismo com Michel Onfray -autor de "A Arte de Ter Prazer" - e a roupa íntima da mulher na Síria.

Haddad afirmou ainda em que a revista é "cultural, séria, permite refletir sobre o corpo, que não só é algo sexual, mas tem muitas facetas".

Além disso, assegurou que sua ambição não é "quebrar tabus, que não pertencem à verdadeira cultura árabe", mas reconheceu que "o fato de "falar do corpo erótico, social, estético e antiestético poderá contribuir para isso".

Nesse sentido, Haddad, que prepara seu doutorado sobre língua árabe na universidade francesa de Sorbonne, citou como exemplos textos árabes dos séculos X, XI e XII, "de uma liberdade maravilhosa que inclusive superam os atuais escritores ocidentais".

"O fenômeno dos tabus é recente, de 200 a 300 anos. Pode ser que a religião seja uma das causas, mas não é tudo. Os intelectuais têm que se reunir para refletir sobre isso", acrescentou.

Por causa dos preconceitos, em algumas ocasiões os entrevistados preferiram permanecer anônimos, mas Haddad se nega a aceitar pseudônimos.

"É mais difícil para as mulheres falar, mas tenho a esperança de que, depois da publicação de cinco ou seis números da 'Yasad', este problema já não exista mais", ressaltou.

A revista está à venda somente em livrarias, envolvida em papel transparente e com um rótulo que diz "para maiores de 18 anos", por 15 mil libras libanesas (US$ 10).

Apesar de não estar presente em pontos de venda de outros países árabes, Haddad explica que há assinantes em outras nações da região, que recebem a "Yasad" por correio.

O sucesso da revista foi tão grande que Haddad precisou imprimir novos exemplares, já que os três mil iniciais esgotaram-se em 11 dias.

Apesar do polêmico tema da publicação, a redatora-chefe afirma que não recebeu ameaças, apenas "insultos via e-mail".

"Tive momentos muito difíceis", confessou. EFE ks/db

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