Reunião da Unasul em Quito termina sem consenso

A reunião de ministros de Relações Exteriores e de Defesa da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), em Quito, terminou nesta terça-feira sem um consenso, informaram os chanceleres de Colômbia e Venezuela, Jaime Bermúdez e Nicolás Maduro.

AFP |

"Não se obteve um acordo sobre todos estes temas e será preciso seguir trabalhando com ânimo positivo para se chegar a uma solução final", disse Bermúdez à imprensa, ao destacar que a pauta não envolveu apenas a questão do acordo entre Bogotá e Washington sobre o uso de bases militares colombianas.

"A Colômbia disse, de maneira explícita, que está disposta a avançar nas medidas de confiança e nas garantias sobre todos os temas, incluindo o acordo de cooperação, mas também sobre a compra de armas, armamentismo, exercícios e testes nucleares".

Já Maduro criticou diretamente a Colômbia pela falta de consenso, afirmando que Bogotá optou por uma "aliança militar" com os Estados Unidos em lugar da paz na região.

"O governo da Colômbia preferiu uma aliança militar para seguir uma guerra (...) a uma aliança de paz com a América do Sul".

"Houve um debate muito intenso, importante, e nós saudamos o alto nível de consenso da América do Sul, mas lamentamos que a Colômbia prefira estar isolada e olhando para o norte do que para seus irmãos do sul", disse Maduro.

O ministro da Defesa do Equador, Javier Ponce, reconheceu que a questão das bases na Colômbia não foi solucionada: "este é um tema sobre o qual temos que seguir trabalhando".

O chanceler boliviano, David Choquehuanca, acusou a Colômbia de assumir uma posição intransigente em Quito, sem esclarecer seu convênio com os Estados Unidos sobre as bases militares.

"É lamentável que a Colômbia não queira oferecer garantias plenas e formais para a instalação das bases militares (...). Estamos em uma situação séria, em uma situação difícil...".

Segundo Choquehuanca, os outros onze países membros da Unasul chegaram a um acordo, enquanto a Colômbia "ficou isolada em alguns temas".

O ministro colombiano da Defesa, Gabriel Silva, estimou que "as garantias devem ser exigidas não apenas para um, mas para todos" os países.

"Não basta pedir garantias para uma questão e deixar de lado as preocupações dos demais", disse Silva, em referência a compra de armas russas por parte da Venezuela.

"Queremos que haja um compromisso de verdade na luta contra o narcotráfico, que se compartilhe a informação sobre as atividades ilegais (...). Esta é a cooperação integral que estamos buscando".

A reunião de Quito foi marcada por um ambiente de desconfiança e tensão gerado tanto pelo acordo militar entre Colômbia e Estados Unidos como pela compra de armamento russo por parte da Venezuela.

O ministro venezuelano da Defensa, Ramón Carrizalez, defendeu a compra de armas russas, incluindo 92 tanques T72 e um número não determinado de mísseis antiaéreos, diante da "ameaça que se instalou na República da Colômbia" com a presença de tropas americanas.

Uma declaração da secretária americana de Estado, Hillary Clinton, que pediu que a Venezuela seja transparente em suas compras de armas, acirrou ainda mais os ânimos na capital equatoriana.

Clinton disse que "é preciso adotar regras e mecanismos para garantir que as armas compradas não sejam desviadas para grupos rebeldes e organizações ilegais, como traficantes de drogas e outros grupos criminosos", e manifestou a preocupação de Washington com uma corrida armamentista na região.

Maduro reagiu afirmando que às declarações de Clinton "não tem base moral ou política", e que são precisamente os Estados Unidos que estão anunciando sete bases militares na América do Sul, em referência ao acordo entre Bogotá e Washington.

De fato, o anúncio da compra das armas russas desviou o foco da reunião, que seria centrada no acordo para a presença de tropas americanas em bases militares na Colômbia.

O presidente do Peru, Alan García, enviou uma carta aos representantes dos 12 países em Quito pedindo um "freio" na corrida armamentista por meio de um pacto de não-agressão militar.

Bermúdez defendeu a discussão de todos os negócios de compra de armas, além do problema do narcotráfico e do terrorismo, que fazem "parte da agenda central de qualquer região".

Já Maduro e seu colega equatoriano, Fander Falconí, anfitrião do encontro em Quito, insistiram no tema do uso das bases militares colombianas por tropas americanas.

O chanceler brasileiro, Celso Amorim, disse que seu país quer "garantias" de que o pacto militar entre Bogotá e Washington não vá ultrapassar as fronteiras colombianas, mas reconheceu o direito de cada país da região de celebrar seus próprios acordos na área de defesa.

pro/LR

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