Resignação derrota esperança em campo de desabrigados do Haiti

Apadrinhado por ator americano Sean Penn, ex-campo de golfe acolhe 50 mil em bairro que era nobre antes do terremoto de 2010

Vicente Seda, de Porto Príncipe, Haiti |

O odor fétido não remete mais aos corpos entranhados em escombros, como acontecia dias após o terremoto de 12 de janeiro de 2010. Em um bairro nobre antes da tragédia que deixou entre 250 mil e 300 mil mortos, o cheiro traduz o que se vê ao chegar no fim da tarde a um dos maiores campos de desabrigados de Porto Príncipe.

Vicente Seda
À noite, em diversas partes de acampamento que abriga 50 mil em Pétionville, Haiti, só há luz de velas ou dos raros faróis de um carro
As valas abertas por todo canto misturam fezes ao lixo mastigado por porcos a metros de crianças brincando felizes com uma bola ou lamentando a falta de comida e teto. Em barracas amontoadas, chão de lama, as lágrimas já secaram. Deram lugar ao medo da cólera, epidemia que assola a terra arrasada. Mas, vivendo no “esgoto”, há pouco o que fazer a não ser, como disse uma moradora, “deixar nas mãos de Deus”.

O abrigo, que foi um campo de golfe e atualmente acolhe mais de 50 mil desabrigados, é apadrinhado pelo ator e diretor americano Sean Penn, que tem se dedicado pessoalmente a ajudar as vítimas do terremoto. Ele, porém, não esteve no local nos últimos dias, como informaram os seguranças questionados pelo caminho.

As vielas são tortuosas, inclinadas, escorregadias. A grande maioria bastante estreita, mas ainda assim dividindo espaço com pequenos canais margeados por sacos de areia para impedir que dejetos saiam do seu caminho até um rio quase seco, aterrado pelo lixo.

Crianças brincam de correr por entre sacos, pulam arame farpado sem preocupação com o tétano, fazem molecagem por madeiras fantasiadas de pontes e conseguem sorrir, parecendo não se dar conta de que sua infância pode estar fadada a uma condição sub-humana, já que a previsão para reconstrução do país é de mais de uma década. Com a chegada da noite, esses pequenos caminhos praticamente se tornam armadilhas.

As vias mais largas são tomadas por barracas iluminadas por velas, muitas delas com produtos à mostra. Se não há medo de saques, também não há dinheiro para movimentar um mercado que, um ano depois da tragédia, ainda sobrevive do escambo. Poucos têm a sorte de estar perto dos raros pontos com gerador de energia.

Alguns fogem ao ver a câmera fotográfica, outros fazem pose. Alguns zombam e pedem dinheiro para dar entrevistas, outros tentam receber os estrangeiros com um senso de hospitalidade fora do comum.

Viollete Monrose, de 53 anos, tinha uma casa em Delmas, bairro vizinho a Pétionville, antes de perder o marido, a irmã, um sobrinho, a casa e a dignidade. Hoje sofre tentando fazer com que os cinco filhos que cria (ela tem dez) sofram menos, em vão.

Não há um café a oferecer, mas o olhar de esperança, apenas por conversar com alguém que talvez, só talvez, possa trazer ajuda ao mostrar ao mundo que o Haiti continua a céu aberto, não tem preço.

“Quando chove, a gente sofre muito mesmo. É difícil criar cinco filhos em uma tenda assim. É muita lama, eles choram. Às vezes me convidam para lavar uma roupa e consigo um dinheirinho para cozinhar para os meus filhos. Assim, vamos sobrevivendo”, diz a senhora Rose que, indagada sobre o que pediria às autoridades do país, não hesita: “Uma moradia mais digna.”

O medo da cólera é uma constante na vida dessa senhora que, no entanto, se vê forçada à resignação. Questionada sobre a epidemia e o chão de lama sobre o qual deita, responde na hora: “Não tem jeito, deixei tudo nas mãos de Deus.”

Assista ao vídeo sobre o acampamento Pétionville:

 *Repórter viajou a convite do Exército brasileiro no Haiti

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