Repressão a protesto força renúncia de mais uma autoridade na Bolívia

Apesar de deixar cargo, ex-vice-ministro do Interior nega acusação do governo de que teria ordenado ação policial contra indígenas

iG São Paulo |

AP
Morales anuncia suspensão de trabalhos em estrada durante coletiva de imprensa em La Paz (26/09)
O ministro do governo da Bolívia, Sacha Llorenti, garantiu que nem ele nem o presidente Evo Morales deram ordens para a intervenção policial na marcha dos povos indígenas no domingo. Segundo ele, a ordem foi dada por Marcos Farfán, que renunciou nesta terça ao seu cargo de vice-ministro do Interior para ser investigado, informou o jornal La Razón. Em sua carta de renúncia, no entanto, Farfán negou ter sido o responsável pela ação.

"Expresso meu desacordo pleno com a forma que se procedeu a intervenção à marcha em Yucumo, que respondeu não muito bem a uma decisão operacional a partir do Poder Executivo e não de mim", escreveu.

Os indígenas protestavam contra a construção do segundo trecho de uma estrada, entre Villa Tunari, no Departamento de Cochabamba (centro) e San Ignácio de Moxos, no Departamento de Beni, próximo à fronteira com o Brasil. O projeto prevê uma rodovia de 300 km de extensão que ligaria o Brasil com o Chile e Peru.

De acordo com o planejamento, a estrada ocuparia 12 mil km² do Território Indígena Parque Nacional Isiboro Secrure (Tipnis), que abriga cerca de 15 mil nativos que vivem da caça, pesca, coleta e agricultura de subsistência. Os residentes temem que o fluxo no local destrua o seu habitat, derrube árvores e polua rios. Ambientalistas dizem que a estrada iria beneficiar os interesses comerciais brasileiros, principalmente com a exportação madeireira. A construção da rodovia ficou a cargo da empresa brasileira OAS. Um empréstimo oferecido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) permitirá o andamento das obras que tem o custo avaliado em US$ 420 milhões.

Segundo Llorenti, Farfán ordenou a intervenção seguindo sugestões de agentes da polícia e os soldados reprimiram e detiveram os manifestantes. Imagens veiculadas na TV local e fotos mostraram que os policiais bateram, algemaram e até colaram fitas adesivas nas bocas dos indígenas.

"Condenamos sem restrição qualquer abuso, qualquer excesso, queremos informar a opinião pública e reiterar que essa operação que ocorreu no domingo nas proximidades de Yucumo não contou com a instrução do presidente do Estado, tampouco com a autorização do ministro do governo. Foi uma decisão tomada por Farfán."

Llorenti, que concedeu uma coletiva de imprensa ao lado do ministro da Presidência, Carlos Romero, reiterou em diversas oportunidades que nem ele nem o presidente tiveram responsabilidade sobre a ordem. "Há um tópico que devemos deixar muito claro. (...) Cremos que é importante destacar que apesar de ter sido dada uma ordem, qualquer instrução dessa natureza não justifica o abuso". Ele acrescentou que nos próximos dias os policiais que agiram de maneira violenta contra os indígenas serão identificados.

Crise

Reuters
Protestos contra a repressão policial tomaram conta das ruas de La Paz (26/9)

A saída do vice-ministro ressalta a preocupação do presidente Evo Morales com a crise formada em torno da questão indígena. Na segunda, a ministra da Defesa Cecília Chacón renunciou ao cargo em protesto à repressão. Na noite de ontem, Morales suspendeu a construção da rodovia . Antes, ele já havia anunciado que um referendo sobre a estrada seria realizado em duas províncias bolivianas afetadas.

De acordo com o jornal La Razón, pelo menos 20 organizações sociais, cívicas e políticas em oito regiões do país andino, além de ativistas urbanos, repudiaram a intervenção policial à marcha. Parte delas anunciaram mobilizações pela defesa do Tipnis. Entre os setores, está a Central Boliviana do Trabalho (COB, sigla em espanhol) que declarou greve a partir de amanhã.

O conflito teve início há 44 dias, quando os indígenas marchariam de Trinidad até a capital, La Paz, com o objetivo de parar a construção da rodovia. No domingo, cerca de 500 policiais usaram gás lacrimogêneo para dispersar o protesto, que terminou com "vários presos", que, segundo a imprensa local, foram colocados em ônibus para serem levados de volta para suas comunidades.

A repressão provocou a fuga de dezenas de manifestantes e diversas crianças foram separadas de suas mães. Com isso, várias organizações anunciaram medidas de protesto. De acordo com uma rádio local, o Comitê Cívico de Beni declarou uma greve indefinida. Em Trindad, capital beniana, pelo menos seis pontos de bloqueios foram instalados e em Beni, as instituções públicas e privadas não funcionaram, assim como as escolas suspenderam suas aulas.

Universitários também criticaram a ação do governo e pediram uma solução do problema. Em Cochabamba e Sucre, estudantes marcharam em repúdio à intervenção e em La Paz, a Universidade Mayor de San Andrés convocou uma manifestação para esta terça-feira. Na Basílica Menor de San Lorenzo de Santa Cruz, 17 membros iniciaram uma greve de fome pedindo a renúncia de Evo Morales pela ação da polícia.

Na segunda-feira, cerca de cem manifestantes caminharam até o prédio do Ministério do Governo e jogaram tinta na fachada da instituição. A esses grupos, se somou a Igreja Católica que exigiu que o governo de Morales desista da "violência" e da "repressão". "Condenamos as ações de intervenção e repressão no acampamento dos irmãos manifestantes", afirmou o secretário da Confederação Episcopal Boliviana, Óscar Aparicio, em conferência.

A oposição ao governo de Morales quer também que Llorenti seja investigado sobre a intervenção à marcha indígena, para explicar as razões jurídicas que levaram a ação policial. O bloco parlamentar indígena analisa retirar seu apoio à bancada do MAS, partido de Morales.

Com EFE e AP

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