HAVANA - A repressão promovida pelo presidente Raúl Castro contra a corrupção vem causando consternação entre alguns cubanos, que se consideram prejudicados pelo enfraquecimento do mercado negro, uma fonte importante de alimentos e outros bens mais baratos.


As queixas são moderadas pela expectativa de que os criativos cubanos, movidos pela necessidade econômica e dotados da experiência de anos furtando em pequena escala da economia socialista centralizada, não vão demorar a restaurar o fluxo de bens ilegais.

Mas, se o presidente conseguir seu intento, isso não vai acontecer. Raúl Castro, que no ano passado recebeu a presidência das mãos de seu irmão mais velho e doente Fidel, prometeu dar uma sacudida na economia trôpega da ilha.

Especialistas estimam que até 20 por cento dos bens sejam roubados enquanto são distribuídos para pontos de venda estatais no país. De acordo com o presidente, isso precisa parar.

Declarações oficiais contra corrupção não constituem novidade na ilha comunista, mas Raúl Castro, que antes de ser presidente foi ministro da Defesa, está adotando medidas duras que incluem colocar muitos estabelecimentos comerciais sob administração militar.

No momento, apesar do arrocho econômico grave causado pela recessão global e os efeitos graves da passagem de um furacão no ano passado, as lojas e os mercados cubanos parecem estar razoavelmente bem estocados. Havia até mesmo papel higiênico, que autoridades tinham avisado recentemente que estaria em falta.

Mas os cubanos dizem que a oferta de produtos no mercado negro, onde geralmente custam menos que nas lojas, vem diminuindo consideravelmente. O salário médio em Cuba é de 20 dólares mensais, de modo que o mercado negro ajuda os cubanos a fazer seu dinheiro render mais.

"Muitas coisas que antes se encontravam no mercado negro estão em falta. Por exemplo, antes havia muito presunto e queijo; agora não se acha mais, porque alguma coisa mudou", disse um oficial militar aposentado, que, como outras pessoas entrevistadas, preferiu não informar seu nome.

"Leite em pó, o iogurte que camponeses traziam para Havana, as pessoas que vendiam detergente na surdina -- todos sumiram", disse uma dona-de-casa de Havana.

O fato de Castro ter posto sob controle militar muitos estabelecimentos comerciais varejistas levou funcionários públicos que antes roubavam produtos rotineiramente a parar, ou pelo menos pensar duas vezes. Consta que os gerentes militares fazem um controle melhor de inventário e toleram menos furtos.

Após anos em que a culpa pelos males econômicos de Cuba era atribuída ao embargo comercial dos EUA, que dura 47 anos, Raúl Castro pediu que os cubanos trabalhem mais para aumentar a produtividade e a eficiência.

Ele também teria aumentado a vigilância nas ruas e mercados, à procura de pessoas que vendem artigos irregularmente, ou "na esquerda", como dizem os cubanos.

Uma nova e poderosa Superintendência Geral foi criada para identificar infratores e puni-los.

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