Repórter da BBC e Betancourt recordam vida no cativeiro

Em uma sala com vista para o Rio Sena, na antiga prefeitura de Paris, o Hôtel de Ville, eu esperava para encontrar Ingrid Betancourt. A história dela - a candidata presidencial colombiana, seqüestrada por rebeldes e mantida em cativeiro na selva por mais de seis anos - sensibilizou pessoas em todo o mundo.

BBC Brasil |

Quando o Exército finalmente a resgatou, em julho, ela foi libertada como uma das mulheres mais conhecidas do mundo.

Como jornalista, eu teria adorado conversar com Ingrid Betancourt em qualquer circunstância.

Mas, para mim, isso seria muito mais que simplesmente outra entrevista, já que eu mesmo fui mantido refém enquanto a colombiana ainda estava em poder dos rebeldes.

Eu fui seqüestrado no ano passado, em Gaza, por um grupo chamado Exército do Islã. E em nossos cativeiros, totalmente diferentes um do outro e separados por uma enorme distância, os nossos guardas nos deram velhos rádios para ouvirmos as notícias.

Pelos programas da BBC, na minha cela, eu acompanhava a história de Ingrid e, mais tarde, descobri que, de seu cativeiro na selva, ela acompanhava a minha.

Quando Ingrid abriu a porta em Paris e entrou na sala, nós nos abraçamos e aí sentamos e começamos a conversar - de uma vítima de seqüestro para outra.

Quase imediatamente, eu disse a ela que minha experiência não podia ser comparada à dela. Eu fui libertado em menos de quatro meses, enquanto ela foi forçada a enfrentar anos sob condições muito mais difíceis.

Ainda assim, tínhamos várias coisas em comum. Havia toda a culpa pelo terrível sofrimento que causamos às nossas famílias por causa dos riscos que decidimos correr.

Batalha psicológica
Ingrid falou de como ela soube da morte do pai pouco depois que foi seqüestrada. Ela encontrou uma folha de jornal e, desesperada por informações, desamassou a página e viu uma foto do caixão de seu pai.

"É outro homem com o mesmo nome", ela tentou se convencer. "Não pode ser meu pai. Não é o meu pai". Mas era. Havia lágrimas em seus olhos, enquanto ela se lembrava.

Perguntei a Ingrid o que ela aprendeu sobre a natureza humana no cativeiro.

"Aprendi tudo sobre a natureza humana", respondeu ela. "Aprendi, por exemplo, quão fracos nós somos diante da pressão de um grupo, como podemos ver pessoas dizendo o oposto do que acreditam simplesmente porque têm medo."
Parece que, para nós dois, houve um momento crítico em que aceitamos que poderia levar muito tempo para sermos libertados. Aí então, tentamos nos adaptar psicologicamente àquela terrível realidade.

Mas tínhamos uma grande diferença entre nós. Eu sou agradecido a muitas das pessoas que tiveram a gentileza de rezar por mim enquanto eu estava em Gaza, mas, na verdade, eu mesmo não estava rezando.

Eu tenho dificuldade em acreditar que Deus acompanha de perto nossas vidas individuais, mas a fé de Ingrid parece ter sido um fator de muita importância em sua sobrevivência.

Ela disse que eu simplesmente não tinha feito as perguntas certas sobre Deus e que é a nossa conexão com Ele que nos torna humanos.

Liberdade
Ingrid também falou do sentimento de ser libertada. "Meu Deus, foi uma reação física", descreveu. "Uma sensação física tão forte que eu gritei. Foi um grito muito, muito longo."
E pouco depois, nossa conversa chegou ao fim. Ela tinha que ir a um jantar que um grupo de vencedores do Prêmio Nobel estava oferecendo em homenagem ao cantor de rock irlandês Bono. Esse é o mundo no qual ela circula.

Quando ela saía, eu disse: "Não se meta em confusão".

Ela sorriu. E respondeu: "Você também".

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