Repórter da BBC chega a zona de combate no Paquistão

A região tribal de Bajaur, no Paquistão, é uma área de combate perto da fronteira com o Afeganistão marcada por construções demolidas, árvores e lavouras derrubadas para evitar emboscadas. O Exército paquistanês conseguiu controlar a região de 38 quilômetros na fronteira, que antes era controlada pelo Talebã, e - com isso - garantiu o acesso de uma equipe da BBC à frente de batalha.

BBC Brasil |

Apesar da retomada do controle, os soldados permanecem em alerta, andam em alta velocidade, disparam suas armas ocasionalmente e os helicópteros de combate sobrevoam a área.

A cidade de Loi Sam, agora em ruínas, foi o palco de combate entre militantes e a Força Aérea. Depois disso, uma ofensiva das forças terrestres durou dias. Centenas de milhares de civis fugiram da região.

Um tanque guarda uma das entradas da cidade, disparando quando há movimento distante. Uma escavadeira já começou a retirar os escombros das construções destruídas.

"É preciso ocupar ou remover as estruturas, senão os militantes voltam depois que sairmos", disse um soldado.

Vitória
Para o Exército, a vitória em Loi Sam foi muito importante, já que a cidade fica em um ponto crucial entre o Paquistão e o Afeganistão. Desta área, insurgentes locais e afegãos podem lançar ataques contra os dois países.

"As atividades militantes a partir desta agência tribal foram se espalhando em direções diferentes, em direção ao Afeganistão, ao resto da região de fronteira e a áreas habitadas do Paquistão", afirmou o porta-voz do Exército, o general-de-brigada Athar Abbas.

"Agora, temos esta área sob controle e isso vai afetar as atividades de militantes em outros lugares", acrescentou. "Podemos nos aproveitar disso."
"O pior já passou", avalia o general-de-brigada Tariq Khan, comandante da ofensiva.

Batalha lenta
A batalha por Bajaur foi desencadeada em agosto, quando a Subdivisão de Fronteira (FC, na sigla em inglês) tentou restabelecer um posto de fiscalização em Loi Sam. A base da Subdivisão de Fronteira foi cercada, e o Exército foi chamado.

Foram seis semanas de batalha para o Exército tomar a estrada que liga o quartel-general das forças de segurança locais, a FC, para Loi Sam, uma distância de apenas 13 quilômetros.

"Existem curvas de estrada, fendas, casas dentro de fendas, trincheiras, cavernas, túneis, tudo preparado", afirma o coronel Javed Baloch. "Foi difícil encontrá-los (os insurgentes) e então tomar a área."
O Talebã usou abrigos e túneis que ligavam vários complexos. Em um dos túneis, cinco metros abaixo da superfície, um dos militares conta que seus homens bloquearam entre 20 e 30 passagens, inclusive uma que se estendia por 100 metros até um rio.

Muitos em Bajaur afirmam que a raiz da revolta na região foi um ataque com mísseis contra um seminário islâmico, ou madrassa, em novembro de 2006, que matou 80 pessoas. Os Estados Unidos seriam os suspeitos de serem os responsáveis.

Os moradores da região afirmam que os militantes islâmicos locais, radicalizados, receberam reforços de militantes de outras áreas tribais paquistanesas e também de combatentes do Afeganistão.

Como outros militares paquistaneses, o general-de-brigada Tariq Khan criticou os ataques aéreos unilaterais dos Estados Unidos contra alvos que seriam insurgentes.

Mas, segundo Khan, durante a operação em Bajaur, houve um melhor compartilhamento de informações secretas com as forças de coalizão, o que reduziu a infiltração de militantes do Afeganistão.

Reconstrução
Agora que os confrontos diminuíram, a atenção se volta para a reconstrução e o desenvolvimento. E ao reconhecimento de que ganhar os corações e mentes em uma região tribal pobre na fronteira é essencial na luta contra insurgentes.

Mas nem isso será o bastante, segundo Shafir Ullah, representante do governo em Bajaur.

"As razões (para insurgência) são pobreza, atraso e outras, mas o problema real está ligado ao Afeganistão", diz Ullah. "Até que o Afeganistão seja estabilizado, você poderá ter 1 milhão de atividades de desenvolvimento nas áreas tribais com administração federal, não haverá resultado."
O Talebã foi afastado, e o Exército afirma que matou 1,5 mil de seus integrantes, mas não foi derrotado. Um ataque com foguetes matou dois soldados em Loi Sam pouco depois da partida da equipe da BBC e o número de mortos entre soldados agora é de 75.

Ao anoitecer, a artilharia continua atingindo posições ocupadas por militantes. Soldados paquistaneses fizeram um abrigo subterrâneo grande o bastante para abrigar 40 homens e até para improvisar uma mesquita.

Segundo Shafir Ullah, quase cem civis também morreram nos confrontos.

Esta não é uma guerra popular no Paquistão, muitos criticam o fato de militares do país estarem matando muçulmanos.

Outros afirmam que esta é a "Guerra da América", mas o Exército insiste que está lutando para defender o Paquistão, não apenas respondendo à pressão americana para agir contra o Talebã.

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