Reportagem do iG visita terreiro de vodu no Haiti

Local de culto abre as portas e mostra os seus artefatos. Praticante explica os tipos de vodu e os misteriosos rituais da religião

Vicente Seda, de Porto Príncipe, Haiti | 21/01/2011 08:02 - Atualizada às 18:20

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Vodu, magia negra, Haiti. Os três termos são sempre relacionados quando o assunto é uma religião que sincretiza tradições cristãs e africanas e que, apesar de reconhecida oficialmente na Constituição do país de 1987, atrai rumores de que incluiria sacrifícios humanos, transformação de pessoas em “zumbis” e até canibalismo.

Praticante do vodu, Marie Rosemarite, uma senhora de sorriso simpático, recebeu a reportagem do iG em sua casa marcada com o símbolo característico dos terreiros: uma bandeira do Haiti ou uma vermelha e preta, tremulando durante o dia, recolhida à noite.

O terreno, humilde, que serve também como orfanato, abriga o desconhecido. A escuridão da estrutura abalada no terremoto de janeiro de 2010 em Tabarre, bairro de Porto Príncipe, pede uma lanterna para ser visitada ao cair da tarde, substituída por dezenas de velas durante as cerimônias, que normalmente acontecem nas noites de sexta e domingo ou em datas específicas que, como na umbanda, não raramente coincidem com o calendário católico.

Por cuidar de crianças, a casa já recebeu ajuda dos brasileiros da Missão de Estabilização da ONU (Minustah, na sigla em francês). Mas, segundo um oficial brasileiro, alguns dos soldados teriam ficado assustados. Ele disse que, ao verem o que acreditaram ser um crânio humano, os militares contaram discretamente o número de crianças no local com receio de que fossem usadas em sacrifícios. O suposto crânio, porém, não foi visto pelo iG.

Questionada, Rosemarite afirmou que no terreiro do seu marido, que estava trabalhando no momento da visita da reportagem, não há sacrifício humano. Explicou que a modalidade de vodu praticada no local só inclui sacrifício de animais (bois, bodes e galinhas) em datas específicas, em oferendas às entidades.

“O nosso vodu é Franc Guinen, os outros, que envolvem sacrifício humano, são o Sampoil, Bizango e Makamba. Tem vodu que é direito, outros não, existem para fazer o mal. Nós sabemos que matam pessoas, mas não fazemos isso. O chefe do terreiro desse tipo de vodu se chama bruxo de duas mãos”, disse a senhora. Essas modalidades de vodu seriam praticadas, de acordo com os nativos, com mais frequência no norte do país e em Léogâne, ao sul de Porto Príncipe.

Foto: Vicente Seda

A parte externa do terreiro de vodu no Haiti, onde funciona o orfanato

Os cômodos do terreiro

Sente-se um calafrio quando se entra em uma sala sem qualquer iluminação, onde estão os artefatos religiosos. Cada cômodo tem uma finalidade, um tipo de espírito a convocar.

Na primeira sala, uma estante coberta com um pano vermelho e outro branco. Em seguida, outra parecida, com um móvel coberto por pano vermelho. Por fim, uma com artefatos cor de rosa, a sala para trabalhos amorosos. Só é possível enxergar tudo isso após o flash da câmera ser disparado.

Depois surge uma sala maior, mas completamente destruída pelo terremoto. “Vamos entrar, mas não podemos ficar muito tempo aqui. É arriscado”, adverte Rosemarite, referindo-se ao perigo de colapso do local.

No canto esquerdo, um pequeno túmulo feito com um pedaço de telha e uma cruz de cimento. O teto côncavo, pintado de azul, realça um grande artefato de madeira, chamado “Tronco do meio”. É onde são convocados os espíritos mais fortes, explicou. O tronco, pontiagudo, traz duas serpentes entrelaçadas, também em madeira. Dali para frente, só escombros. Foi impossível continuar.

As datas do vodu

Rosemarite contou quais são algumas das datas importantes da religião. As principais são os dois primeiros dias de novembro, quando se realiza a “Festa dos Mortos”. Nela, sacrificam-se animais no terreiro.

Na véspera de Natal, 24 de dezembro, é preparado um banho de proteção para as crianças do orfanato. Em 6 de janeiro, há a “Festa do Papa Loco”, uma das entidades locais. Esse é o dia dos espíritos no vodu. Os dias 1º e 2 de maio são de “Cousin (primo) Zaka”, espírito que trabalha a terra e, por isso, usam-se frutas como oferenda. Em 24 de junho, celebra-se o dia de “Tijan Dantó”, equivalente a São João Batista no catolicismo. 

As práticas e os sacrifícios

Com um pouco de hesitação, Rosemarite começa a responder perguntas sobre os sacrifícios do vodu. Apesar de reiterar que seu terreiro não faz sacrifícios humanos, reconhece que, em alguns casos, podem ser feitos trabalhos de “ataque”. “Por exemplo, se o marido troca sua mulher por outra e a ex-mulher pede um trabalho para reconquistar seu amado, fazemos uma cerimônia para ‘colocar fogo’ na casa (tornar a vida do novo casal insuportável) até que o marido volte para a mulher. Mas a gente não mata.”

Nas ruas do Haiti, ouvem-se rumores macabros, mas não há como comprovar até onde vão os boatos e começa a verdade.

Segundo alguns relatos, os sacrifícios humanos seriam realizados pelos “bruxos” de maior poder nos cultos. As vítimas seriam escolhidas na rua para serem mortas e terem olhos e corações extraídos. De acordo com o que relataram à reportagem, os órgãos seriam comidos e o sangue, bebido.

Os zumbis

Outra simbologia relacionada ao vodu haitiano é o da figura dos zumbis, cuja descrição não é nada parecida com a dos mortos-vivos dos filmes “trash” da moda em Hollywood.

A vítima a ser transformada em zumbi seria envenenada com substâncias misteriosas (uma delas retirada do peixe Baiacu), que só o autor do trabalho saberia o antídoto. Após ser induzida ao coma pela toxina, a vítima seria enterrada temporariamente para ficar com danos irreversíveis no cérebro. Após ser “ressuscitada”, se tornaria um zumbi sob o comando do bruxo que fez o trabalho.

De acordo com a crença local, os zumbis andariam como pessoas normais, mas teriam olhar vago, perdido, e não conseguiriam falar normalmente.

Foto: Vicente Seda

Não é raro ver imagens representando santos católicos nos terreiros de vodu no Haiti

Apontando para o fundo do seu terreiro, Rosemarite relatou o que seria um suposto caso de zumbi.
“Ali atrás, um homem supostamente matou outro. A pessoa foi enterrada, mas um ou dois dias depois apareceu andando, com as mãos amarradas nas costas. Os autores do trabalho o levaram até a frente da casa de sua família e o espancaram brutalmente. Não sei qual espécie de mal ele havia feito para ter esse castigo. O zumbi não tem vontade própria, não revida, só obedece. É usado para trabalhar para uma pessoa, seja em uma horta, ou para outras coisas piores”, disse.

Como o vodu no Haiti é praticado a portas fechadas, onde a entrada de uma pessoa de pele branca raramente é bem vista, um estrangeiro dificilmente conseguirá comprovar todas essas histórias.

Caça aos bruxos

Embora o vodu no Haiti já tenha sido uma religião extremamente popular, começa a perder espaço para outras vertentes, como o evangelismo. Isso porque há uma rejeição dos haitianos a quem pratica o vodu para fazer o mal.

Entre militares e alguns haitianos comenta-se que alguns dos chefes de terreiro têm sido assassinados sob a acusação de recorrer a uma prática hedionda. Em vez de sacrifícios, usariam os chamados “lenços do cólera” para disseminar a doença, que deixou quase 3,9 mil mortos desde outubro no país.

“Cerca de 40 sacerdotes do vodu foram assassinados nos últimos meses. Parte da população acredita que eles foram responsáveis pela disseminação do cólera no país”, confirmou o embaixador do Brasil no Haiti, Igor Kipman.

*Repórter viajou a convite do Exército brasileiro no Haiti

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    25 Comentários |

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    • Allysson | 21/01/2011 17:48

      Que tal uma reportagem sobre as más influências dos missionários cristãos "bem intencionados". Reportagem que só reproduz o senso comum não traz nada de novo, alimentando preconceitos contra o povo haitiano.

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    • Sula | 21/01/2011 17:16

      Sinceramente, penso que as perseguições, torturas e imolações dos pseudo-hereges, executadas, com requintes de crueldade pela Igreja Católica na época da Inquisição; o genocídio praticado pelas Cruzadas, com o incentivo e bênção dos Papas, assim como a sistemática escravização de povos pelos católicos e protestantes, são muito mais assustadores, tenebrosos e execráveis do que os rituais Vodus, sistematicamente, deturpados pela ótica hollywoodiana.

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    • Rafael | 21/01/2011 17:13

      Se vodu realmente mata-se teria sido ultilizado nas diversas guerras que ja ocorreram.

      Sera que a humanidade nunca vai sair da idade pre-cientifica e abandonar supersticoes ? Vivemos num mundo aonde podemos falar com qualquer pessoa nao importato o quao longe ela esteja instantaneamente e enquanto issoainda existem pessoas que acreditam em deuses , espiritos e magica.

      Esta na hora de adotar uma mentalidade mais avancada e deixar o mundo de faz de conta pra tras.

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    • Paulo Gonçalves | 21/01/2011 16:51

      O repórter, amedrontado, só conseguiu expressar suas impressões pessoais e reforçar o preconceito contra a religião predominante no Haiti. Seria esta a intenção da reportagem?

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    • regina jardim | 21/01/2011 16:49

      a reportagem foi um pouco imprecisa. só deixou os leitores
      com mais racistas. o povo africano tem suas religiões e suas
      crenças. não vamos comparar com o catolocismo ou outras.

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    • Rodeval brito | 21/01/2011 16:41

      Quem acredita num Deus seja ele filosófico ou não não pode concordar com essas práticas pois leva as pessoas ao atrazo e a cometerem atrocidades com inclusive sacrifícios de crianças e animais.Falam como se sacrificar animais fosse natural.A verdadeira religião,cristã ou não não admite isso.Se o diabo existe com certeza são seus seguidores e sempre mais a frente são cobrados como aconteceu no Haití.A ciencia é a maior prova da existencia de Deus que nos deu um cérebro para que com esforço e boas práticas possamos compreender os fenômenos que nos cercam alem do entendimento ao meio ambiente e amor ao próximo .

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    • vasco | 21/01/2011 16:21

      Este e o tipo de reportagem que descreve muita coisa sem dizer ou esclarecer absolutamente nada.

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    • Vania | 21/01/2011 16:03

      A base das religiões africanas é a diplomacia. Qdo uma tribo A está com fome devido à seca ou outro fenômeno da natureza, vai até o limite do seu territorio com o de outra tribo ( daí a encruzilhada) que possua mais recursos, faz uma "festa" para determinado santo pedindo chuva ou outro recurso, para que o chefe da outra tribo ouça qual é sua necessidade. Não pedem diretamente pois são guerreiros orgulhosos. Vestem-se de branco como quem diz: não queremos guerrear, mas se for preciso...Por isso se usa branco na passagem do ano. O chefe da tribo B entende a mensagem e faz outra festa no limite do seu território, com vários tipos de alimento. Um guerreiro da tribo A vem recolher os alimentos incorporado ( como pomba gira, etc) . É somente isso, diplomacia, transformada pelos cristãos em ritos demoniacos.

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      José Fernandes | 21/01/2011 18:02

      Ainda bem que existem pessoas sensatas como vc, parabéns pela luz que nos trouxe o seu comentário!

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    • Sula | 21/01/2011 15:57

      Em todas as religiões, das mais tradicionais (incluindo a católica) às mais recentes, tem-se notícias de sacrifícios humanos e de animais como parte de seus rituais. O que espanta é que, até hoje, qualquer pesquisador lida com vestígios antropológicos e boatos. Não há sequer qualquer relato testemunhal da prátrica de tais rituais. Para mim, são como relatos de abduzidos por OVNI's: só blá-blá-blá. Fico imaginando se aquelas igrejas (uma, próxima de Praga, capital da República Tcheca e a de São Francisco, em Évora, Portugal), revestidas de ossadas humanas são menos assustadoras do que a visita do Ig ao terreiro de Vodu, no Haiti.

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