Reparação da usina de Fukushima avança, mas radiação chega ao mar no Japão

No dia em que técnicos conectam cabos de força em todos os seis reatores, empresa confirma contaminação em águas litorâneas

iG São Paulo |

Reuters
Fumaça é vista saindo da área de um dos reatores da usina nuclear em Fukushima (21/03)
No mesmo dia em que equipes conseguiram conectar cabos de força em todos os seis reatores da usina nuclear de Fukushima Daiichi, no leste do Japão, para restabelecer o sistema de resfriamento local, aumentam as preocupações sobre as consequências da crise nuclear do país com a constatação de que há radioatividade nas águas litorâneas da região.

Segundo Tokyo Electric Power Company (Tepco), que administra a usina, uma amostra de água marinha recolhida na segunda-feira a uma distância de 16 quilômetros da central revelou um nível de iodo radioativo I-131 16,4 vezes superior ao limite legal.

De acordo com a Tepco, água coletada a 330 metros da usina tinha um nível de iodo-131 126,7 vezes maior que o permitido, enquanto o césio-134 estava 24,8 vezes maior que o normal. Já o nível de césio-137 estava 16,5 vezes acima do permitido.

O governo japonês indicou que ainda é cedo para saber se os produtos pesqueiros da área estão contaminados e assinalou que, em breve, serão realizadas análises para avaliar o impacto da radioatividade no mar. O Executivo apontou que, no momento, não há no mercado produtos pesqueiros procedentes de Fukushima e pediu às províncias vizinhas de Ibaraki e Chiba que aumentem a fiscalização do setor de pesca.

O vice-presidente da Tepco Norio Tsuzumi visitou um abrigo de emergência em Tamura, onde estão cerca de 800 moradores da cidade de Okuma, cidade mais próxima à usina de Fukushima. Tsuzumi se desculpou aos desalojados, que foram obrigados a deixar suas casas por causa do risco da radiação.

Cabos conectados

Os esforços dos técnicos para manter sob controle os seis reatores de Fukushima avançaram nesta terça-feira com o sucesso em concluir as operações para conectar todos eles a fontes externas de energia e, assim, restituir o funcionamento administrável da usina.

Embora os cabos já estejam posicionados, reativar o fornecimento de energia elétrica pode levar um ou vários dias, já que antes é preciso revisar o estado de todos os instrumentos e motores para evitar um curto-circuito que complicaria ainda mais os trabalhos de manutenção.

Os técnicos trabalham em situações extremas, rodeados de elevados níveis de radioatividade, frequentemente às cegas e em um panorama de três reatores (os números 1, 2 e 3) destruídos por explosões de hidrogênio e um quarto (o número 4) danificado por um incêndio.

Para complicar, os reatores 1 e 2 foram mais danificados pela água do mar do que se acreditava originalmente, o que demandará mais tempo para que sejam consertados, disse a Tepco. O tsunami que se seguiu ao terremoto de 9,0 graus de 11 de março danificou componentes elétricos e bombas nas duas unidades, disse Sakae Muto, vice-presidente da Tepco, citado pela rede de TV CNN.

Segundo ele, o reator 2 tem mais danificado do que o 1, sendo que as primeiras substituições de equipamentos devem acontecer na quarta-feira. Ainda não se sabe a causa dos danos, mas água do mar foi bombeada neles para resfriar os equipamentos como medida de emergência depois do tremor.

Juntamente com militares e equipes de bombeiros convocadas de Tóquio e Osaka, funcionários da Tepco se esforçam há 11 dias para evitar que a temperatura do combustível nuclear aumente e emita elevadas quantidades de radioatividade.

Os trabalhos foram interrompidos na segunda-feira por temores de que radiação poderia estar vazando de Fukushima por meio de uma nuvem de fumaça . No entanto, os níveis de radiação na área caíram nesta terça-feira, depois de apresentar alta por um breve período no dia anterior.

Caminhões de bombeiros voltaram nesta terça-feira a jogar água no reator número 3, enquanto um veículo especial utilizado normalmente para bombear cimento se concentrou na unidade 4, onde causa preocupação a piscina de armazenamento, que guarda uma grande quantidade de combustível nuclear utilizado.

Enquanto são feitos os esforços para controlar a usina nuclear, operacional desde 1971, as autoridades verificam os níveis de radiação na região, na qual foi imposto um isolamento de 20 quilômetros. Também se recomendou aos moradores que estão entre 20 e 30 quilômetros que não saiam de suas casas e permaneçam com as janelas fechadas.

AP
Equipe de Autodefesa do Japão retiram corpo envolto em cobertor durante cerimônia para as vítimas do terremoto de 11 de março
Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), na cidade de Namie, a 20 quilômetros da usina, o nível de radioatividade chegou a ser 1,6 mil vezes maior que o habitual, registrado a 161 microsievert por hora.

Nos lugares mais afastados, como as Províncias de Saitama, Chiba, Kanagawa, e na própria capital, Tóquio, as medições do governo japonês, da AIEA, da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de especialistas americanos indicam que os níveis de radiação estão muito abaixo do nível perigoso para a saúde.

As medições do governo japonês se estenderam aos alimentos da região, após radioatividade ser detectada em leite e espinafres, levando as autoridades a proibir a distribuição dos produtos.

Reconstrução

O prejuízo causado pela tragédia natural no Japão é estimado pelo Banco Mundial em US$ 235 bilhões (cerca de R$ 392 bilhões) e a reconstrução do país pode levar até cinco anos.

O terremoto e o tsunami, seguidos de uma crise nuclear ainda em curso, prejudicaram as cadeias produtivas de indústrias automotivas e eletrônicas. Além disso, “os danos em habitações e infraestrutura foram sem precedentes”, diz o relatório.

O número de mortos, que pode chegar a 15 mil, e os prejuízos devem ser mais do que o dobro dos causados pelo terremoto de Kobe, em 1995. As companhias de seguros devem arcar com apenas uma pequena parte dos custos, deixando a maioria do prejuízo a ser coberta pelo governo e pela população, aponta o documento.

Em contrapartida, a conclusão do relatório é que o impacto da tragédia no crescimento japonês provavelmente será “temporário” e terá efeito “limitado” na economia regional.

*Com EFE e BBC

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