Renascer de uma língua, fenecer de outras

Os covanos que são António Forno de gandir uns da marinha de maltezão têm agora que ambrosiar duas vezes antes de colar das do Casal Farto para del rei com seus andarilhos. É que as mandatárias são agora muito aleluias quando o Paialvo é demais no da morcela.

BBC Brasil |

Minhas férias não foram só cherne, Dão e piscina. Ou água de cocô no envólucro natural, geladinha, que este ano teve. Não, não. Este ano, além de passar muito mal, li Camilo Castelo Branco (o esplêndido Amor de Perdição) e comecei a estudar o minderico. Estando ameaçado de extinção, feito eu, é comigo.

O minderico é um socioleto falado com alguma frequência até a década de 70 na vila do Minde, concelho de Alcacena, quiçá um calão, como se disse, em vias de desaparecimento. Mas li em jornal sério, numa matéria de página inteira, que umas palavras da língua (ou será calão profissional?), dirigidas ao cidadão correto, pode ver um brilho surgir em seus olhos minderense se perguntar, mesmo com sotaque brasileiro, "Como vai a Piação do Ninhou?"

O Minderico, ou Piação dos Charales do Ninhou, é a variante linguística falado em Minde desde o século XVIII, inicialmente usado como código para negociações por um povo (sobraram poucos, mas altivos) por natureza negociante. O Minde é fruto de uma sociedade fechada, localizada num vale, entre duas serras (a d'Aire e a dos candeeiros) e o minderico, inicialmente igual a umas poucas outras línguas que restaram e que servem para seus membros se entenderem entre si sem serem compreendidos por outros.

Graças à professora Vera Ferreira, linguista portuguesa sediada na Alemanha, e à Volkswagen, lá também estabelecida, estão de comum acordo em vias de conseguir oficialização para o vernáculo em questão graças aos fabricantes dos velhos besourões e ao Programa de Documentação da Línguas Ameaçadas em todo o mundo. Feito o Guguyimidjir, a língua laz, o nju e, por que não?, o português do Brasil.

Há uma TV Minde, online, onde não levam nada que se pareça, bendito seja Shiva, Caminho para as Índias. Há um Dicionário de Minderico que não consegui comprar, mas chego lá. E muitos outros projetos (eu, pessoalmente prefiro projecto), ou atos abertos, do que diversos países com mais de 6000 pessoas alfabetizadas.

A piação (não confundir com Twitter) dispensa decreto-lei, reformas, acordos ou dicionários venais. Trata-se apenas de uma língua falada e usada por uma gente orgulhosa do que lhe foi legado. Quem dera fossem todas as gentes que herdaram o idioma, socioleto ou calão de Camões, fossem sensatos como a professora portuguesa e as indústrias Volkswagen.

Em tempo: aquelas primeiras linhas querem dizer o seguinte em português de Portugal, o único que vale a pena, aliás: "Os que gostam de beber uns copos de vinho têm agora que pensar duas vezes antes de deixar a mesa para ir à estrada conduzir automóveis. É que as leis são rigorosas quanto a excesso de álcool no sangue."

(IVAN LESSA, colunista da BBC)

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