Remédio para malária pode reduzir efeito de antibiótico, diz estudo

Uma pesquisa de cientistas canadenses afirma que os remédios mais comuns usados no tratamento de malária podem diminuir a força de alguns antibióticos. Os pesquisadores do Centro de Saúde Lakeridge, de Oshawa, Ontario, descobriam que moradores de um vilarejo da Guiana tinham bactérias resistentes a antibióticos que nunca tinham sido usados na região.

BBC Brasil |

Os estudiosos canadenses afirmam que o medicamento cloroquina pode ter causado o problema.

Os cientistas viajaram para áreas remotas da Guiana, de floresta tropical, retiraram amostras do ânus de 500 moradores do vilarejo e analisaram a resistência das bactérias encontradas, incluindo E. coli e salmonela, ao antibiótico ciprofloxacina, um dos mais usados no mundo.

Os pesquisadores descobriram que mais de 5% das amostras continham E. coli resistentes à ciprofloxacina. Nas unidades de terapia intensiva de hospitais americanos, onde o antibiótico é muito usado, a taxa é de 4%.

O grau de resistência encontrado foi tão alto que é provável que outros antibióticos da mesma "família" da ciprofloxacina também sejam afetados.

O estudo foi divulgado pela publicação científica Public Library of Science.

Expostos
A resistência a antibióticos é um grande problema em países ocidentais, onde variações de bactérias causadoras de doenças, como a estafilococo, se adaptaram e criaram resistência aos medicamentos mais comuns.

Mas, para o desenvolvimento de uma variedade resistente, a bactéria geralmente precisa ser exposta ao remédio, mesmo que seja uma forma parecida do antibiótico.

No caso do vilarejo da Guiana, não foram usados antibióticos na região. Mas foram usados medicamentos contra a malária, principalmente a cloroquina.

O antibiótico ciprofloxacina é de uma família de antibióticos chamada fluoroquinolonas, que são quimicamente relacionados à cloroquina.

A equipe de pesquisadores canadenses afirma que a exposição à cloroquina, apesar de ter sido eficaz na destruição do parasita da malária, criou a resistência nas bactérias que vivem no intestino - uma resistência também à fluoroquinolona.

Um surto de malária registrado no ano anterior na região estudada fez com que uma alta proporção de moradores do vilarejo afirmasse que recebeu o medicamento contra a doença nos últimos dois anos.

"Isso significa que o uso da cloroquina para a malária pode fazer a fluoroquinolona menos eficaz para muitas doenças tropicais como febre tifóide, diarréias e possivelmente também tuberculose e pneumonia nos países em desenvolvimento", disse Michael Silverman, que liderou o estudo.

Mosquito
O médico afirma que, no curto prazo, não há muita escolha a não ser usar este tipo de medicamento contra a malária, mas também é preciso pensar em alternativas.

"Estas informações sugerem que devemos concentrar nossos esforços na prevenção da malária usando medidas para o controle do mosquito como redes para colocar nas camas e com o desenvolvimento de vacinas."
Os cientistas encontraram mais provas da ligação entre a resistência aos antibióticos continuando a pesquisa em laboratório, onde a E.coli exposta à cloroquina ficou resistente ao antibiótico ciprofloxacina e outros medicamentos semelhantes.

Registros dos serviços de saúde da Guiana também revelam um aumento nas infecções por bactérias resistentes a estes antibióticos depois de um grande surto de malária em 2002.

Para a professora Laura Piddock, pesquisadora no setor de resistência a antibióticos na Universidade de Birmingham, a pesquisa canadense é "intrigante", mas ainda não prova que a presença de bactérias resistentes foi causada pelo uso de remédios contra a malária.

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