Rejeição à missão francesa, um sinal da desconfiança das Farc

A rejeição pelas Farc da missão enviada pela França à Colômbia para socorrer Ingrid Betancourt reflete a desconfiança total do movimento guerrilheiro, sob a ameaça permanente de uma ofensiva militar, em relação ao presidente Alvaro uribe, acusado de ter enganado a França.

AFP |

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) justificaram nesta terça-feira sua decisão à "má-fé de Uribe em relação ao governo francês", destacando que a missão humanitária não foi objeto de qualquer negociação.

"A guerrilha não quer pagar o preço deste fracasso, e atribuiu toda a culpa a seu eterno inimigo", explicou à AFP Alfredo Rangel, um especialista do conflito colombiano.

De acordo com Rangel, diretor da Fundação Segurança e Democracia, um instituto de estudos particular de Bogotá, a recusa das Farc em aceitar a missão humanitária se explica pelo "temor de serem localizados pelo Exército" colombiano.

Segundo a guerrilha marxista, a morte de seu número dois, Raúl Reyes, durante um ataque do Exército colombiano no Equador no dia 1 de março, mostra que o presidente colombiano é "o principal obstáculo e o inimigo número um da troca" de reféns por guerrilheiros presos.

As Farc exigem a libertação de 500 guerrilheiros em troca de um grupo de 39 reféns, entre eles Ingrid Betancourt, ex-candidata à presidência colombiana que também tem a nacionalidade francesa.

Considerado próximo das Farc, o líder comunista Carlos Lozano havia advertido antes mesmo do envio da missão que "nenhuma pessoa foi designada pelas Farc como interlocutor" depois da morte de Reyes.

"Os rebeldes nunca aceitaram receber uma missão humanitária, nem mesmo da Cruz Vermelha, pois isso significa, segundo eles, um risco importante de se expor a um ataque militar", afirmou Rangel.

O ministro francês das Relações Exteriores, Bernard Kouchner, admitiu na semana passada que as Farc ficaram "muito chocadas e sem dúvida muito desorganizadas com os ataques" do Exército colombiano.

Assim, o avião enviado por Paris, estacionado desde quinta-feira passada no aeroporto de Bogotá, já não tem mais chances de receber um sinal da guerrilha para decolar rumo à selva, onde Ingrid Betancourt, refém das Farc desde fevereiro de 2002, teria recebido recentemente cuidados médicos devido ao agravamento de seu estado de saúde.

"Os guerrilheiros fecharam a porta a qualquer concessão. Eles preferiram se aferrar a sua oposição frontal a Uribe", considerou Carlos José Herrera, especialista em resolução dos conflitos internacionais e professor na Universidade jesuíta em Bogotá.

"Dizer que Uribe enganou a França ao incentivá-la a enviar uma missão é parte da estratégia das Farc. Porém, isso pode lhes fazer perder mais crédito no cenário internacional", prosseguiu.

Até mesmo o senador colombiano Juan Fernando Cristo, um dos líderes da oposição a Uribe, considerou a decisão das Farc de "grave erro, pelo qual vão acabar pagando mais cedo ou mais tarde".

Os especialistas também reconheceram que a iniciativa francesa foi mal preparada. "Paris foi ingênuo ao acreditar que a promessa feitas por Uribe de suspender as operações militares no sudeste da Colômbia bastaria para desbloquear a situação", frisou Rangel.

"A missão era fadada ao fracasso, pois as Farc não haviam sido consultadas", afirmou o especialista, considerando que o governo francês "procurou ganhar crédito interno através de um gesto de impacto na mídia".

pz/yw/sd

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG