Teresa Bouza. Washington, 13 ago (EFE).- A reforma no sistema de saúde promovida pela Casa Branca aqueceu o debate político nos Estados Unidos, como demonstram as audiências públicas convocadas para que a população ouça as propostas do Governo e dê sugestões de mudanças.

Nos últimos dias, o congressista democrata do Texas Lloyd Doggett foi vaiado por uma multidão enfurecida, o legislador democrata de Nova York Tim Bishop teve que ser escoltado pela Polícia e o parlamentar da Carolina do Norte Brad Miller recebeu ameaças de morte por não promover uma sessão de debates em seu distrito.

Aos gritos de "Eutanásia", "Medicina socializada", "Tomada do poder pelo Governo" e "Não, não, não", os opositores praticamente inviabilizaram o debate nas audiências públicas convocadas pelos legisladores de cada estado para explicar a reforma aos eleitores.

Na terça-feira, o senador Arlen Specter - agora democrata, após uma longa trajetória como republicano - teve que apartar uma briga entre duas pessoas que participavam de uma assembleia na Pensilvânia.

O mesmo aconteceu numa audiência na Flórida. E em várias outras os ânimos dos interessados no assunto se exaltaram mais do que o devido.

Os episódios, parte de uma longa lista de percalços, demonstram o quão aquecido ficou o debate político nos EUA desde o início das discussões sobre a reforma proposta pelo presidente Barack Obama, que busca implementar uma cobertura médica universal e reduzir os elevados custos dos seguros de saúde.

Mas muitos americanos veem com receio o projeto que o Congresso deverá aprovar e temem uma intervenção pública no setor, dominado pela iniciativa privada.

Uma pesquisa publicada esta semana pelo jornal "USA Today" mostra que a opinião pública vê o tema como "complexo" e que não será fácil aprovar a reforma até o fim do ano, como quer Obama.

Dois terços dos afro-americanos e seis em cada dez latinos dizem que o principal objetivo da reforma deveria ser garantir a cobertura médica universal.

Por outro lado, seis em cada dez brancos, acham que as mudanças no sistema deveriam priorizar o controle dos gastos. Em linhas gerais, o maior monitoramento das despesas tem mais apoio que a ampliação da cobertura médico-hospitalar.

Sondagens à parte, democratas como Doggett dizem que, depois das acaloradas discussões nas audiências públicas, não há uma mobilização popular espontânea em relação ao assunto, mas uma campanha organizada por políticos e corporações.

"Esta é uma campanha coordenada pelo Partido Republicano e a indústria dos seguros", disse Doggett numa entrevista recente à rede de TV "CNN".

Os republicanos negam. "O que me é mais ofensivo é a sugestão dos líderes democratas e desta Administração de que há uma espécie de campanha em andamento para tentar lotar estas assembléias populares", disse à Agência Efe o congressista republicano Mike Pence.

Os que protestam nas audiências públicas, segundo Pence, são "pessoas comuns preocupadas (...) com o fato de o Governo querer controlar uma indústria após a outra".

Em meio à troca de acusações, não falta quem se pergunte onde estão os milhões de voluntários que integraram a rede Organizing for America, que ajudou Obama a chegar à Casa Branca.

O problema, segundo uma reportagem publicada esta semana pelo jornal "Los Angeles Times", é que não é fácil transformar uma operação de campanha numa rede capaz de impulsionar políticas concretas.

Além disso, ideologicamente, boa parte dos integrantes dessa rede está à esquerda de Obama e se diz um pouco desiludida com o Governo de centro do presidente.

Os diretores do grupo também reconhecem que os setores contrários à reforma estão mais bem organizados do que os democratas imaginavam.

De qualquer maneira, disse o subdiretor Jeremy Bird, a organização não vai dormir no ponto, tanto que já contratou equipes em 42 dos 50 estados do país para fazer campanha a favor da reforma.

Obama também dedicará boa parte de seu tempo à defesa do plano.

Nesta terça-feira, ele já esteve numa assembleia popular em New Hampshire, onde, ao contrário do que foi visto em outras localidades, o clima era tão tranquilo que teve que incentivar os mais céticos a se manifestar.

Amanhã, ele estará numa audiência pública em Montana. Mas, desta vez, são esperados protestos. EFE tb/sc

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