Foram duas semanas e três dias de estrada, quase 6 mil quilômetros percorridos. Conheci pessoas muito diferentes em cidades nos Estados de Washington, Idaho, Utah, Wyoming, Colorado, Nebraska, Iowa, Illinois, Michigan, Pensilvânia, Nova York e aqui na cidade de Washington, a capital americana.

Tirando esses Estados, atravessei vários outros, parei em incontáveis postos de gasolina perdidos no meio do nada, enfrentei frio e calor e fiz novos amigos.

Agradeço muito as críticas, sugestões e comentários enviados pelos internautas que acompanharam esta aventura.

Entre as sugestões mais repetidas está a de que eu viajasse por outros Estados onde há uma maior concentração de brasileiros, como a Flórida, Massachusetts e Estados vizinhos.

As regiões próximas a Boston e Miami tradicionalmente são as que mais concentram brasileiros nos Estados Unidos, junto com a região de Nova York (onde fica Newark, que visitei).

Conferir a vida dos brasileiros na Flórida e em Massachusetts poderia ser interessante, mas, nesta viagem, o objetivo principal foi outro: verificar o crescimento no número de hispânicos e brasileiros em outras regiões menos "óbvias" dos Estados Unidos, onde não se pensa que a imigração desses grupos seja significativa.

A conclusão é que, de fato, muitas pessoas estão indo para essas regiões dos Estados Unidos em busca de oportunidades e porque algumas delas ainda facilitam a imigrantes o acesso a certos documentos, como a carteira de habilitação.

Muitas pessoas enviaram perguntas. O Celio Sperb, de Porto Alegre (RS), quer saber se está valendo a pena morar nos Estados Unidos, e o Robson de Souza, de Contagem (MG), perguntou se nos Estados Unidos "realmente não há desemprego" e "as pessoas são felizes".

A atual conjuntura pode ser desfavorável aos novos imigrantes, por causa dos problemas econômicos dos Estados Unidos.

Muitos com quem conversei me falaram da falta de vagas de trabalho. Em março, o desemprego americano estava em 5,1% da população economicamente ativa.

Quanto a serem felizes ou não, muitos imigrantes vivem em péssimas condições e não me pareceram tão infelizes. Fazem amigos e sonham em voltar ao Brasil em uma situação melhor do que a que tinham quando vieram para os Estados Unidos.

Há também os que vivem bem nos Estados Unidos, mas sofrem com a saudade de sua terra.

O Erico Rangel Machado, de Nova Iguaçu (RJ), perguntou se eu notei maior preconceito racial no norte dos Estados Unidos. Notei um pouco mais de resistência aos imigrantes na Pensilvânia, onde as medidas contra os indocumentados anunciadas pela prefeitura de Hazleton gozam de apoio popular. Outras cidades da Pensilvânia cogitam ou cogitaram medidas parecidas.

Muitas pessoas elogiaram meu trabalho, mas também recebi algumas críticas. O Edson Costa, de Fortaleza (CE), questiona o fato de a BBC Brasil ter decidido participar de um projeto da BBC Mundo, o braço em espanhol da BBC.

Segundo ele, "os brasileiros, ainda mais nos Estados Unidos, nada têm a ver com o mundo latino (ou hispânico)". "As comunidades de imigrantes brazucas não estão juntas com as dos latinos."
Edson, nas reportagens consideramos "latinos" aqueles que são originários de países da América Latina, que inclui o Brasil. O termo "hispânico" é diferente, se refere aos países que um dia foram colonizados pela Espanha no continente e falam espanhol.

Quanto às comunidades não estarem juntas, não foi isso o que descobri. Apesar da barreira da língua e da cultura, hispânicos e brasileiros moram muitas vezes uns ao lado dos outros, trabalham juntos e criam fortes vínculos de amizade.

Em Newark, por exemplo, brasileiros e equatorianos dividem o mesmíssimo bairro.

Mas, de fato, a integração não é fácil e está longe de ser total. Há muitas lojas e restaurantes frequentadas apenas por brasileiros.

A Isabella, de Worcester, Massachusetts, disse que ficou decepcionada com a superficialidade das reportagens, que esperava ver "perguntas corajosas" e mais informações.

Isabella, meu trabalho foi tentar mostrar um retrato desse mundo dos imigrantes latinos nos Estados Unidos. Destacar alguns personagens, mostrar como os imigrantes se posicionam em relação às eleições presidenciais nos Estados Unidos, à crise econômica no país e à vida no exílio. Vou tentar aprender com os erros que você apontou e melhorar numa próxima oportunidade.

Passando em frente à Casa Branca hoje, comecei a refletir sobre a viagem e concluí que o presidente que for eleito pelos Estados Unidos em novembro dificilmente poderá fugir da indigesta questão da imigração ilegal neste país.

Os Estados Unidos estão mudando. Hoje, de norte a sul, de leste a oeste, há muitos imigrantes latinos, entre eles cerca de 12 milhões de indocumentados vivendo nas sombras.

Veja o caso dos imigrantes brasileiros - em todas as cidades em que procurei por eles, eles estavam lá. Mesmo em lugares ermos, cidades pequenas.

O futuro presidente terá que refletir sobre o fato de que os Estados Unidos são um país de imigrantes. Eles ajudaram a construir a maior potência econômica do mundo. E continuam ajudando.

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